sexta-feira, 20 de Novembro de 2009


Há coisas que, mesmo sem nos dar qualquer gozo, temos de as fazer, e por vezes a vida inteira! São as imposições da vida.
Outras há que fazemos com imenso gozo, a vida inteira, se necessário. É a parte voluntária da vida.
Depois temos aquelas coisas que que são um misto das duas anteriores em termos temporais: numas fases são feitas de uma forma voluntária, noutras por imposição.
Para nossa felicidade e saúde mental, ainda podemos escolher de algumas continuar ou não quando o voluntarismo desaparece.
Tudo isto para dizer que o História a Qu4tro Mãos durou enquanto foi feito de uma forma voluntariosa pelos seus autores. Dava gozo, a inspiração estava lá e as palavras saiam.
Factores externos, que infelizmente não fazem parte do nosso imaginário, mas sim da realidade, nua e crua, levaram-nos a um estado de apatia que nos bloqueou a imaginação e a vontade, ou antes, a voluntariedade.
Mas é passageiro e aguardem-nos que voltamos, brevemente, mais do que imaginam.

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

5 - Lisboa início de 1997 (VII)

Bernardo não mais viu Alfredo naquela noite. Ficou ainda alguns minutos sentado no banco da casa da piscina. A sua cabeça estava a cem à hora: a forma como conheceu Maria, a sua beleza, o banho na piscina e para completar Alfredo ter aparecido!

Quando saiu deu de caras com Beatriz. Bastou a Bernardo olhar para ela para se aperceber que estava furiosa. Quando Beatriz arregalava os olho e tremia o lábio inferior, o melhor era fugir.

‘Já há mais de uma hora que o procuro! Que smoking é esse? E porque tem os sapatos todos molhados? E…’

‘ Olha a Sra. Dona Beatriz no seu melhor!’, eram Maria que entretanto se aproximava e sem querer perder a oportunidade de trocar ironias com a mãe.

Sem se aperceber da verdadeira razão para tal interrogatório, continuou:’ Não, ele não roubou o smoking ao seu querido António. Fui eu quem o foi buscar ao vosso quarto e lho emprestou!

Bernardo deixou-se ficar calado e quieto, enquanto as duas mulheres trocavam olhares e palavras..

‘Sabes mãezinha,’, continuou Maria, ‘Eu ia a passar e o Dr. Bernardo também. Ah, e íamos a passar junto à piscina, como a passagem é muito estreita… a Mãezinha tem de alertar a empresa de catering de que as mesas estão muito próximas da piscina… assim como cai eu e o Dr. Bernardo, podia ter sido a Mãezinha. É que eu…’

‘Chega Maria!’, interrompeu Beatriz. ‘Você só está bem a contrariar-me. Aposto que fez de propósito… e ainda por cima envolveu o Dr. Bernardo nos seus esquemas!’

‘Beatriz, desculpe, Sra. D. Beatriz…’, corrigiu Bernardo ao aperceber-se da presença de Maria, que continuou:

‘Oh Dr. Bernardo, não tenha problemas comigo. Todos sabemos que aqui a Sra. D. Beatriz é muito dada a familiaridades, principalmente com rapazes que tem idade para serem filhos dela!’

Sem se conter, Beatriz prega uma bofetada em Maria com todas as forças que o estado de nervos lhe permitiu.

Maria leva a mão à cara, Bernardo fica sem respiração e Beatriz, segurando a mão com que bateu em Maria com a outra, diz:

‘Você estava a pedi-las há muito, mas agora começa a passar dos limites!’

Maria, ainda com a mão na cara, desata a rir às gargalhadas: ‘Estou a ver que neste tempo todo que estive em Londres não mudou nada! Sim senhora, continua a ter bom gosto. Aqui o Dr. Bernardo não é nada de se deitar fora! Mesmo com o Smoking do Dr. Abrantes…’, e continuando, ‘… há quanto tempo é que vocês andam? Ai, vai bater-me outra vez? Agora deste lado? Essa é por que idade, pelos dezasseis?’, continuou Maria ao ver Beatriz levantar novamente a mão, gesto que foi impedido por Bernardo que lhe segurou o braço.

‘Pois é Dr. Bernardo, ela tem mau feito. É muito violenta! Tem fama de ser um furacão noutras circunstâncias…’

O pensamento de Bernardo levou-o aquela primeira noite com Beatriz, em que ele se sentiu um verdadeiro homem. Havia sido uma noite de grande carga emocional da qual ele ainda se lembrava como se tivesse sido no dia anterior!’

Voltando ao presente, Bernardo continua:’… nós caímos à piscina. Chocamos um com o outro e caímos.!

‘Caíram à piscina?!’ Sinceramente, o que irão dizer as pessoas!’.

‘Sim, se eu amanhã estiver com uma bruta de uma pneumonia não em importância nenhuma…aliás a Sra. D. Beatriz nem vai dar conta, de tão ocupada que vai estar a ler as revistas da socialite e a telefonar às amigas a desculpar-se e a falar dos modelos das outras…’

‘Maria, de uma vez por todas, chega! Já viu o que o Dr. Bernardo vai pensar de nós, da nossa família? Que somos um bando de loucos e que não nos entendemos! ‘

‘E não é verdade?! E mais a mais, deixemo-nos de cinismos. Já deu para perceber, mesmo bêbada, que vocês se conhecem bem! Coitado do Dr. Abrantes, mais uma vez passado para trás… e pelo funcionário exemplar…’

‘Agora está a ofender-me a mim. Não fosse a senhorita estar alterada e eu não lhe permitia tais afirmações. Respeite o senhor seu pai, por quem tenho muita estima e a senhora sua mãe por quem também tenho uma grande estima!’- interceptou Bernardo, num tom mais solene do que o tido até ali. E continuando: ‘ Eu não admito que nem em pensamento, tenha essa ideia da minha pessoa. Tenho-me por uma pessoa idónea que tem vindo a conseguir as coisas fruto do seu suor! Eu sei que estou em sua casa, que a festa é sua, mas um homem tem o seu pudor!

‘Pudor, ah, ah. Ele tem pudor…’ E dizendo isto Maria afastou-se do parzinho que ficou lado a lado a vê-la aproximar-se de um grupo de jovens da idade dela.

Quando Maria estava bem longe, Bernardo, embalado pelo discurso em frente de Maria, continuou: ‘ Beatriz, você tem de ter mão na sua filha! É no mínimo desagradável! E agora, se me dá licença, vou-me embora. Tenho os pés gelados. Os sapatos estão todos molhados e começo a sentir frio.’

‘Mas Bernardo, temos de falar. ‘

‘Amanhã. Agora preciso de ir embora. ‘

E num passo apressado afastou-se na direcção da saída.

Quando entrou no carro respirou de alívio. Sentia-se em porto seguro. Pôs o carro a trabalhar em ponto morto e ligou o ar condicionado n máximo. Tinha os pés gelados e começava a ter arrepios de frio.

Recostou-se no banco, fechou os olhos e ficou assim um bom bocado até começar a sentir os pés a aquecer.

A imagem de Maria naquela vestido vermelho não lhe saía da cabeça. Nunca se tinha deslumbrado assim por uma mulher.

Quando já sentia os pés mais quentes arrancou rumo a casa. No caminho tocou o telemóvel. Era um número desconhecido. Não era hábito seu atender, mas sem saber bem porquê atendeu. Do outro lado, uma voz que já se ia tornando familiar:’ Apesar das circunstâncias, espero que tenhas gostado da tua futura esposa.’

Era Alfredo.

‘Futura esposa!? De que falas? ‘

‘Da Maria Vieira de Abrantes. ‘

‘Deve estar a brincar comigo. Não me chateie. Já tive que chegasse por hoje! Bruscamente desligou o telemóvel e atirou-o para o banco de trás do carro.

Com toda a força carregou no acelerador e continuou a toda a velocidade o caminho até casa.

Acordou no dia seguinte com a luz do dia a bater-lhe na cara. Estava deitado atravessado em cima da cama, ainda feita e tinha as calças e a camisa do smoking de António vestidos.

Demorou alguns segundos a perceber o que se passava. Aos poucos começou a lembrar-se de Alfredo na festa, da queda na piscina, de Maria, da zanga de Beatriz…

Olhou para o relógio. Tinha parado nas 11h30m, hora em que caiu à piscina. Procurou o telemóvel. Não o encontrou. Lembrou-se então do telefonema de Alfredo, já estava ele a caminho de casa e de no final ter atirado o telemóvel para o banco do carro.

Levantou-se e no caminho para a casa de banho foi tirando a roupa, que acabou de tirar enquanto punha a água a correr.

Maria não lhe saia do pensamento. Ele e ela dentro da piscina, eles na casa da piscina e Maria com aquele vestido vermelho.

Quando saiu do banho a campainha tocava insistentemente. Enrolou-se na toalha e enquanto se dirigia para a porta ia dizendo: ‘Já vai.’

Antes de abrir a porta espreitou pelo olho mágico. Era Mariana, a secretária. Intrigado, esquecendo-se que tinha apenas uma toalha enrolada à cinta abriu a porta.

‘Que fazes aqui!? Que se passa? ‘

‘Que se passa pergunto eu, pergunto eu Dr. Bernardo’, respondeu Sónia com um ar ainda preocupado. ‘ Estive toda a manhã a ligar-lhe e não me atende o telefone. São três horas da tarde e agora até o telefone está desligado!’, continuou.

‘Disseste três horas?!’

‘Sim, por isso é que vim aqui. O Dr. tem uma reunião às quatro horas com o advogado do caso do prédio da Rua Augusta…’

‘Arre! Vou chegar atrasado!’, resmungou enquanto batia com o punho cerrado na parede.

‘… Dr., eu tenho o processo ali no carro. O escritório do Dr. Serôdio fica a meia dúzia de quarteirões daqui. É só acabar de se arranjar e vai directo para lá… está tudo no carro.

‘Tens a certeza que trouxeste tudo? Perguntaste à Sónia se estava tudo direito?’

Mariana trabalhava há dois meses na Vieira de Abrantes. Tinha sido contratada para substituir Sónia que estava grávida e caso desse mostras de competência seria admitida como secretária de Bernardo.

‘Perguntei sim Dr. Bernardo. Está tudo direito! Não há dúvidas… nem era preciso perguntar. Os meus próprios olhos o confirmam…

E dizia isto com um ar malicioso enquanto olhava para Bernardo que entretanto deixara cair a toalha.

Bernardo quando se apercebe do estado em que está, cora e apressadamente apanha a toalha. Enrola novamente a toalha à cinta, puxa Mariana para dentro de casa e fecha a porta bruscamente.

‘Aguarde um bocado que eu vou-me vestir e já volto.

Enquanto se vestia espirrou mais umas poucas de vezes. De cada uma delas ouvia vinda da sala um 'santinha'. Estava ainda a vestir-se quando tocou a campaínha. Da sala Mariana: 'Eu abro'.
Ouviu-a falar com alguém e bater a porta. Enquanto arranjava o nó da gravata foi caminhando até à sala.
'Quem era?'
'Era um estafeta e deixou este envelope para o doutor. Não tem remetente e diz 'Confidencial''
'Estranho...' balbuciou Bernardo...'Bom deixe ficar aí em cima da mesa. Vamos lá a despachar que estamos em cima da hora...ora bolas, o relógio avariou...'
'Eu posso levar para consertar... se o doutor quiser.', ofereceu-se Mariana.
'Está bem, faça-me lá esse favor.'. Passou o relógio para a mão de Mariana e começou a vestir o casaco. Ainda com o casaco meio vestido bateu a porta enquanto Mariana já esperava o elevador.
Ao entrar para o elevedor voltou a espirrar. Mais uma vez MAriana repetiu 'Santinha', mas desta vez com uma pontinha de malícia, seguido de ' Deve ter apanhado frio ontem à noite Dr. Bernardo... nesta época do ano as noites são frias...'
Bernardo olhou para ela, abriu a boca para falar, mas logo mudou de ideias. O elevador entretanto parara e a vizinha do segundo andar entarara.
Durante os dois andares que faltavam interrogava-se se MAriana dizia aquilo porque já todos sabiam do sucedido, ou se era mais uma das suas atitudes provocatórias iguais às tantas outras que vinha a lançar para cima dele desde que entrara para o escritório.

A reunião correu bem. O nervosismo de Bernardo rapidamente se transformou em calma, quando se apercebeu que Mariana tinha toda a documentação necessária.

'Pronto Dr., agora já confia mais em mim? Eu não lhe disse que estava tudo direito?!'

'Sim disse.' , repondeu Bernardo depois de mais um espirro. 'Acho que tenho de ir a uma farmácia comprar qualquer coisa para a constipação..', e continuando:'Depois de a deixar no escritório no regresso trato do assunto.'

'Eu tenho o meu carro à porta de sua casa Doutor. Não precisa de me levar ao escritório. Vamos fazer antes assim. O Doutor vai para casa e eu vou à farmácia...'

Bernardo começava a sentir-se sem forças. A febre começava a subir e ele fazia parte daquele grupo de pessoas que quando tem febre mal se aguentam de pé. Resolveu aceitar.

'Está bem. Vá então à farmácia e traga-me qualquer coisa que baixe a febre e me trate da garganta.'

E assim foi. Bernardo foi para casa e Mariana à farmácia. Quando estava a estacionar ouviu um beep vindo do banco de trás do carro. Era o telemóvel. Acabava de se desligar por falta de carga na bateria. Pegou nele, meteu-o ao bolso e meteu-se no elevador.

Resolveu tomar um banho antes de se deitar e quando estava a sair, a campaínha tocou.

Enrolou a toalha na cinta e foi abrir a porta, enquanto pensava:' Foi depressa à farmácia... não conheço nenhuma aqui perto...'

Abriu a porta e outro lado estava uma figura feminina, que não Mariana que lhe disse: 'Finalmente... pensei que tinha desaparecido...'

domingo, 21 de Junho de 2009

5 - Lisboa início de 1997 (VI)

'Senhor Alfredo Gomes, se é que é este o seu nome, deixe-me, ao menos fazer-lhe um pedido, para sair desta situação com alguma honra' – diz Bernardo, tentando sair da situação o melhor que podia.
'Então o nosso Dr. é um homem de honra!' – responde Alfredo ironicamente. - 'Pois muito bem, diga lá qual é a sua condição, ou melhor, qual é o seu pedido.'
Neste momento, o jovem advogado só conseguia pensar no seu emprego. Afinal de contas, era isso que estava em jogo. Se o Alfredo enviasse algumas daquelas fotografias para o António Augusto, a sua carreira estaria arruinada. Tinha também certeza que se tal acontecesse, não conseguiria emprego em nenhum dos escritórios de advogados de Lisboa, uma vez que António Augusto certamente falaria com todos os seu amigos e conhecidos. Estava, por isso, decidido a fazer qualquer coisa para salvar o seu emprego e a sua reputação como advogado. Venderia a alma ao diabo se fosse necessário, mas tinha que manter-se na Viera de Abrantes.
'Faço tudo o que pretender, mas não mostre em caso algum estas fotografias ao Dr. Vieira de Abrantes nem à esposa.'
'Bernardo, Bernardo! Não precisa de dramatizar. Sejamos práticos. Nem eu, nem a organização a que pertenço temos qualquer interesse em que deixe de trabalhar na Vieira de Abrantes Associados. Isso é bom para sim e também é bom para nós. Porque é que acha que o escolhemos?'
'Confesso-lhe que não faço a mínima ideia da razão de me escolherem e também não sei para o que me escolheram. Que organização é essa de que tanto fala?'
Alfredo ri-se e olha para Bernardo com um ar de superioridade.
'Então o Dr. acha que eu lhe vou facilitar informação sobre a organização? Para já deve saber apenas o que lhe disse quando o encontrei pela primeira vez: a sede é na Suíça e vai ser o nosso contacto em Portugal.'
'Mas que tipo de trabalho querem que eu faça? Embora tenha alguns conhecimentos sobre pintura e pintores, não tenho qualquer actividade profissional ligada às artes e muito menos contactos com o meio artístico português. Isto a não ser, que considerem as festas a que vou com a Beatriz eventos culturais.'
'A informação que tem é suficiente por agora. A única coisa que preciso saber é se aceita ou não colaborar connosco.'
'Penso que já respondi à sua pergunta. Aliás, não me resta qualquer alternativa.' - responde Bernardo com um olhar de aflição de quem não faz a mínima ideia de onde se está a meter.
'Muito bem Bernardo, a nossa conversa acaba por aqui. Aguarde notícias nossas.'
'Mas como vos posso contactar?'
'Não precisa de nos contactar. Aguarde simplesmente instruções da nossa parte. E já agora, penso que não é necessário alertá-lo para o facto de que deve manter sigilo sobre a sua entrada para a organização...'
'Sim claro, esteja descansado.'
'Tenha um bom dia e muito obrigado pelo café.'
Dizendo isto, Alfredo levantou-se e saiu. Bernardo que tinha estado de pé durante toda a conversa, atirou-se para cima da sua cadeira quase sem forças. Nunca tinha enfrentado uma situação destas. Uma série de perguntas surgiam na sua cabeça. Perguntas às quais não sabia como responder.
Tentou acalmar-se e analisar os prós e contras da situação. Embora com muitas dúvidas sobre as actividades que iria desenvolver para a dita organização suíça, havia algo que o deixava um pouco mais tranquilo. O dinheiro que lhe pagariam faria com que as suas dívidas diminuíssem, podendo pagar ao banco e a Beatriz. A ideia de dever dinheiro à sua amante incomodava-o muitíssimo. Não suportava depender de uma mulher. Para além disso, talvez o trabalho a realizar não fosse nada de especial e não influenciasse em nada a sua carreira de advogado na Vieira de Abrantes. Fez um esforço para pensar de forma positiva em toda a situação. Teria que esperar por desenvolvimentos e, por isso, nada iria fazer de concreto. Aliás, não poderia mudar em nada as suas atitudes para não levantar suspeitas. António Augusto era fácil de enganar, mas Beatriz começava a conhecê-lo muito bem, e qualquer mudança de atitude da sua parte seria imediatamente por ela identificada e levaria a perguntas inconvenientes.
Ao pensar em Beatriz, lembrou-se que nesse mesmo dia tinha um jantar em casa dela. Há já muito tempo que não ia a casa dos Vieira de Abrantes devido à sua situação com Beatriz. Evitava sempre ter que encarar António Augusto num ambiente mais familiar. Embora ele fosse uma pessoa distante e pouco dada a demonstrações sentimentais, Bernardo sentia-se sempre um pouco intimidado quando tinha que estar simultaneamente com ele e com Beatriz. O olhar de António Augusto parecia-lhe sempre reprovador como que a dar-lhe a entender que sabia de tudo o que se passava entre ele e a mulher. De qualquer forma, este jantar até seria um bom pretexto para não ter que encarar Beatriz sozinha hoje. Embora estivesse um pouco mais tranquilo relativamente ao assunto de Alfredo Gomes e da sua organização, tinha receio que ela lhe notasse algo de estranho num olhar ou em qualquer coisa que dissesse. No jantar iam estar mais convidados uma vez que o casal Vieira de Abrantes celebrava o regresso a casa da sua filha mais velha, Maria, que estivera a estudar em Londres.
Beatriz já lhe tinha falado alguma vezes de Maria, dando-lhe sempre a entender que o relacionamento entre as duas não seria dos melhores. Maria era muito parecida com o pai e nada dada ao estilo de vida que a mãe levava. Desde há um ano e meio atrás que as preocupações de Beatriz com a filha tinham aumentado substancialmente, uma vez que, sem qualquer aviso prévio, a jovem estudante de História das Artes comunicou aos pais que se tinha mudado para casa do namorado, um tal Mike, que era guitarrista numa banda rock que actuava em bares nos subúrbios de Londres. Beatriz e António Augusto ficaram em pânico com a situação, mas pouco ou nada puderam fazer, a não ser tentar convencer Maria de que um músico de uma banda de rock londrina não era homem para ela. Este tipo de atitude dos pais fez com que o romance durasse ainda mais tempo.
A Beatriz tinha-lhe contado com muito mais pormenor a história do romance de Maria com Mike, mas Bernardo nunca se tinha interessado particularmente por isso. Aliás, ultimamente não eram raras as vezes em que Beatriz falava com ele sobre determinado assunto e ele acabava por ser perder noutros pensamentos. Lembrava-se, no entanto, de ela lhe ter comentado que o romance tinha terminado abruptamente quando Mike tinha decidido partir para os Estados Unidos a pretexto de um convite para integrar uma nova banda. Maria tinha ficado destroçada e resolvera que voltaria para Portugal assim que terminasse os seus estudos.
Assim tinha acontecido há três dias atrás para alegria de António Augusto e alívio de Beatriz. Maria voltara definitivamente para viver em Lisboa em casa dos pais e para celebrar este regresso, os Vieira de Abrantes resolveram organizar uma festa em sua casa que seria uma óptima oportunidade para mostrarem aos seus amigos e conhecidos que Maria voltara livre e desimpedida.
Quando Beatriz lhe disse que a filha ia voltar e que estava a organizar uma festa para assinalar o seu regresso, Bernardo não demonstrou qualquer interesse. Já conhecia uma das filhas do casal Vieira de Abrantes, a Toninha, e isso não o deixava muito à vontade, uma vez que era pouco mais velho que ela. O facto de ser amante de uma mulher que tinha idade para ser sua mãe tornava-se constrangedor para ele neste tipo de situações.
Perdeu-se nestes pensamentos e dedicou o resto do dia a rever uns processos que necessitavam a sua intervenção urgente. Como sempre, o trabalho estava para Bernardo à frente de todos os seus assuntos pessoais, incluindo o caso que mantinha com Beatriz já quase há dois anos.
No final da tarde passou no seu apartamento para se preparar para a festa em casa de Beatriz. Continuava sem a mínima vontade de comparecer, mas sabia que tinha obrigatoriamente que o fazer. Não teria como desculpar-se com Beatriz e o facto de não comparecer poderia aumentar ainda mais as suspeitas que todos tinham sobre o seu romance proibido.
Depois de esperar algum tempo para não ser dos primeiros convidados a chegar, Bernardo sai de casa mais com a sensação de que ia para um funeral do que para uma festa. O dia já tinha sido fértil em acontecimentos estranhos e só esperava que nada de errado acontecesse em casa dos Vieira de Abrantes.
Foi Beatriz quem lhe abriu a porta e ao vê-lo, suspeitou imediatamente que algo se passava.
'Bernardo eu disse-lhe que a festa era de cerimónia. Como é que não vem de smoking?'
Tinha-se esquecido completamente que a festa exigia smoking, coisa que nunca lhe acontecia.
'Esqueci-me Beatriz. Vou a casa trocar-me...' - disse tentando agir com naturalidade.
'Não vai nada, agora que já está aqui fique como está. Aliás, eu estava à espera que não chegasse tão tarde. Já estão quase todos aqui. O que é que se passou? Não está com boa cara.'
Beatriz, perspicaz como sempre, tinha notado que algo se passava e ia inundá-lo com perguntas.
'Entre, vamos para a sala. Não podemos ficar aqui muito tempo a conversar. De qualquer forma vai ter que me dizer o que se passa consigo.'
O facto de não poderem ficar muito tempo a conversar, livrou Bernardo de uma explicação imediata. No decorrer da festa lembrar-se-ia de uma desculpa para se justificar. Não conseguia perdoar-se pelo facto de se ter esquecido de vestir o smoking.
Após este cumprimento inicial, Beatriz e Bernardo separaram-se para manter aparências.
A casa estava cheia de gente. Beatriz esmerava-se sempre nas festas de sua casa e tudo era supervisionado até ao mais ínfimo pormenor, desde um talher numa mesa, até um arranjo de flores ou uma vela no jardim. O ambiente estava na realidade muito agradável mas Bernardo não se sentia particularmente à vontade uma vez que, estando de fato e gravata, chamava a si todas as atenções. Sentia-se observado e criticado especialmente pelas mulheres. Felizmente encontrou um grupo de conhecidos com que tinha suficiente à-vontade para dizer que se tinha esquecido que a festa era de cerimónia e, por isso, estava naqueles preparos. Dois gin-tónicos depois e já todos riam da situação.
A homenageada não tinha dado, até aquele momento, o ar da sua graça na festa. Os Vieira de Abrantes já estavam todos presentes, excepto Maria, e os convidados já começavam a perguntar por ela, o que estava a deixar Beatriz visivelmente ansiosa. Ao cruzar olhares com Bernardo, conseguiu fazer-lhe sinal para que a seguisse discretamente. Encontraram-se ao fundo do jardim, sem que tivessem dado muito nas vistas.
'Está tudo a correr mal. Começando por si Bernardo que nem se lembrou do smoking, e acabando na Maria que deve ver estar metida no quarto a fazer tempo para não descer só para me deixar nervosa.' - diz Beatriz num tom visivelmente perturbado.
'Tenha calma Beatriz. Não estamos aqui há tanto tempo assim.'
'Vê-se mesmo que não conhece ainda a Maria. Ela é exactamente igual ao pai, faz tudo para me contrariar. Acha que lhe agradou o facto de eu lhe preparar esta festa de boas vindas? Claro que não. Achou uma coisa perfeitamente desnecessária e sem sentido. E o pior de tudo é que o António Augusto se colocou imediatamente do lado dela e acabou por dizer que eu só penso em festas que não têm utilidade nenhuma.'
'Mas se a Maria não queria a festa porque é que insistiu?'
Ao ouvir estas palavras de Bernardo, Beatriz ficou vermelha de raiva.
'Até você? Agora até você está do lado da Maria e do seu paizinho.'
'Não é nada disso, Beatriz. A questão é que evitaria estar nesse estado de nervos se tivesse respeitado a vontade da sua filha. Afinal foi ela quem regressou a casa e deveria ter sido ela a decidir se se faria uma festa de comemoração do regresso ou não.'
'São todos iguais. Depois de tanto trabalho, na organização da festa, é este o agradecimento que me dão.'
Estavam ambos nesta discussão sem sentido quando ouviram todos os convidados a bater palmas. Maria que acabara de descer para se juntar à festa.
Ao ouvir as palmas, Beatriz despede-se apressadamente de Bernardo para se dirigir ao interior da casa e receber Maria na festa. Para não dar muito nas vistas, Bernardo permaneceu no local em que se encontrava durante mais algum tempo. Desde que era amante de Beatriz, estava habituado a fazer estes compassos de espera para não levantar suspeitas. Sabia que muitas vezes eram exagerados, mas não podia correr o risco de ser descoberto por António Augusto.
Ao entrar em casa, Beatriz encontra Maria já a conversar com alguns dos seus amigos mais chegados, mas, para seu espanto, a filha veste umas calças de ganga azuis já bastante usadas e uma blusa branca de um simplicidade atroz. 'Como pôde ela fazer-me uma coisa destas. Como pode aparecer vestida daquela maneira, quando lhe ofereci um vestido lindíssimo para vestir esta noite.' - pensou Beatriz.
Havia, no entanto, que manter as aparências e Beatriz era exímia em fazê-lo. Dirigiu-se a Maria e disse-lhe em voz alta para que todos ouvissem:
'Ainda bem que já desceu minha querida. Queria dizer-lhe a si e a todos, que eu, o seu pai e a Toninha estamos muito felizes por tê-la de volta a casa. A festa é para si. Divirta-se.'
'Obrigado mãe. Tenho a certeza que a festa vai ser óptima. Tu és óptima a organizar estas coisas.' - diz Maria num tom de ironia que não convence ninguém.
Todos os presentes tinham conhecimento do mau relacionamento entre Maria e Beatriz. Aliás, o facto de Beatriz ter organizado uma festa para a filha com tanto empenho e dedicação era estranho para todos. Muitos tinham adiado outros compromissos para estarem presentes em tão estranha reunião entre mãe e filha. Maria estava já a corresponder às expectativas dos que afirmavam que as coisas não iriam correr muito bem, uma vez que tinha optado por escolher uma roupa tudo menos apropriada para a ocasião.
Não era o facto de ter vestido umas simples calças de ganga com uma camisola branca que atenuava a beleza de Maria na sua festa. Era uma mulher muito bonita, com uma presença muito especial e mesmo que não vestisse apropriadamente para a ocasião conseguia, tal como a mãe, atrair para si todas as atenções. Para além disso, herdara do pai uma tenacidade e inteligência invulgares, que conjugadas com um espírito crítico acutilante, faziam de si uma pessoa verdadeiramente interessante e fora do comum.
Bernardo, que tinha ficado no jardim depois de ter falado com Beatriz, não tinha ainda sido apresentado a Maria e nem sequer a tinha visto. Continuava sem grande vontade de privar com mais uma filha da sua amante e deixou-se ficar a conversar com um grupo de seus conhecidos junto à piscina.
Depois de conversar longamente com um casal amigo, Maria decide ir ao jardim para cumprimentar o resto dos convidados. Sentia-se agora mais descontraída depois de ter bebido dois whisky e de ter conversado com grande parte dos seus amigos de sempre. Neste aspecto, Beatriz não tinha falhado, convidara todos os amigos da filha, mesmo aqueles de que não gostava e que raramente iam lá a casa.
À volta da piscina encontravam-se inúmeros convidados pois, embora fosse ainda inverno, a noite estava muito amena e os aquecedores de exterior faziam maravilhas. Maria deambulou por ali, cumprimentando todos, falando da sua experiência em Londres e dos seus planos para o futuro. Todos sabiam do seu relacionamento com Mike e da forma intempestiva como tinha terminado, mas este assunto não era abordado.
Ao dirigir-se ao grupo onde se encontrava Bernardo, Maria um pouco inebriada por mais um whisky que acabara de tomar, tropeça numa das mesas de apoio e em desequilíbrio tenta apoiar-se em Bernardo que não conseguindo ampará-la se deixa cair para trás. Perante o olhar perplexo de todos, os dois jovens acabam dentro da piscina.
Enquanto Bernardo tenta recuperar o fôlego e refazer-se do susto, Maria consegue segurar-se na borda da piscina e começa a rir-se desalmadamente.
Ao vê-la rir, Bernardo irritou-se.
'Veja por onde anda. Está bêbeda?'
'Sim, estou bêbeda e não vejo mesmo por onde ando.' - disse Maria rindo às gargalhadas. - 'Sei que neste momento estou na piscina contigo e aproveito para me apresentar. Maria Vieira de Abrantes.'
Ao ouvir o nome de Maria, Bernardo ficou sem palavras. Este era um dia em que não paravam de acontecer coisas estranhas.
'O meu nome é Bernardo Homem de Sousa e trabalho com o seu pai. As minhas desculpas se fui indelicado consigo, mas cair dentro da piscina não é coisa que se possa considerar agradável, mais a mais no Inverno.'
'Então tu é que és o Bernardo de que já me tinha falado do meu pai. Penso que nos podemos tratar por tu, afinal somos quase da mesma idade.'
'Claro que nos podemos tratar por tu. Desculpa os meus formalismos, mas na minha profissão são sempre necessários. Já agora, o teu pai falou-te de mim porquê?'
'Porque tu és um dos melhores advogados da firma, só isso.'
Bernardo sentiu-se bem, por ter sido elogiado por António Augusto.
'Para mim é uma honra trabalhar com um dos melhores advogados de Lisboa' – disse.
'Deixa-te lá de elogios ao meu pai e vamos mas é sair daqui. Estou a ficar gelada e a minha mãe não tarda aí para fazer um escândalo.'
Bernardo, que também já estava a ficar completamente gelado, acedeu de imediato ao pedido de Maria.
'Vem comigo, vamos ali à casa de apoio à piscina. Deve haver lá toalhas, que podemos usar para nos limparmos.' - disse Maria, pegando-lhe na mão e começando a correr.
Passaram pelos convidados, molhados até aos ossos e conseguiram chegar à casa de apoio sem serem vistos Beatriz.
'Cá estão as tolhas! Tira umas poucas e limpa-te.'
Bernardo estava a ficar constrangido. Para se limpar teria que se despir e não o poderia fazer em frente a Maria. Além disso, como iria fazer com o fato que estava completamente encharcado. Não adivinhava boas perspectivas para sair airosamente daquela situação sem que Beatriz soubesse. Preocupado com o que fazer, nem reparou que Maria já se tinha tinha tirado as calças e a camisola e que estava ao seu lado apenas com a roupa interior.
'Então? Não tiras a roupa?'
Ao vê-la, Bernardo desviou o olhar em sinal de respeito.
'Não me digas que nunca viste uma mulher em roupa interior.' - Diz Maria atrevidamente enquanto se embrulha numa toalha.
'Claro que sim.' - diz Bernardo envergonhadamente.
'Está bem, já percebi. Tira a roupa e embrulha-te numa toalha enquanto eu vou ao meu quarto vestir outra roupa e te trago um dos smokings do meu pai.'
Sem dizer mais nada Maria retira-se.
Bernardo despiu-se e limpou-se a uma das tolhas e ficou a aguardar.
Maria regressa uns vinte minutos depois. Vestia um vestido vermelho que impressionou Bernardo. O jovem advogado não tinha ainda tido tempo de apreciar a beleza da filha de António Augusto. Conhecera-a apenas há uns momentos atrás e já tanta coisa tinha acontecido.
'Consegui um smoking do meu pai, que te deve servir. Mas não encontrei uns sapatos. Vais ter que usar os teus mesmo molhados.'
'Estás linda com esse vestido! - Disse Bernardo involuntariamente.
'Esta não ocasião para piropos Dr. Bernardo. Veste-te, porque temos que voltar para a festa. Porque não vieste de smoking? A minha mãe deve ter ficado chocada.'
'Essa é uma longa história que agora não tenho tempo de te contar.'
'Está bem. Eu vou andando. Vemo-nos por aí.' - desse Maria afastando-se.'
'Obrigado por me teres salvo.'
'Obrigado por teres sido solidário ao caíres comigo na piscina.'
Bernardo não conseguiu deixar de sorrir. Ao vestir o smoking para voltar à festa pensava no seu dia. O encontro com Alfredo, as fotografias com Beatriz, o facto de se ter esquecido de vestir um smoking para a festa e a queda na piscina com Maria eram acontecimentos completamente fora do comum.
Estava quase a terminar de se vestir quando ouviu alguém entrar. Ao princípio pensou ser Maria que voltara, mas depressa verificou que era um vulto masculino.
'Boa noite Bernardo. Gostaste de conhecer a menina do Vieira de Abrantes?'
Reconheceu imediatamente a voz de Alfredo.
'O que é que você está aqui a fazer? Como conseguiu entrar?'
'Eu entro onde quero e tu não te tens que preocupar com isso. Estou aqui apenas para te dizer que o teu primeiro trabalho é aproximares-te da Maria e ganhares a confiança dela. E agora regressa para a festa e diverte-te.'

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

5 – Lisboa início de 1997 (V)

Enquanto Beatriz ia falando sobre as tricas da noite, Bernardo conduzia em silêncio. Estava longe dali. Interrogava-se sobre se conhecia aquele homem. Tinha quase a certeza que não. A sua memória fotográfica nunca i tinha traído. Era capaz de se lembrar de pessoas que conhecera em criança…

Bernardo, está a ouvir o que lhe estou a dizer?’.

Sim…’, respondeu Bernardo voltando ao presente.’… que disse?’

Que se passa? Não ouviu nada do que eu lhe disse desde que saímos da embaixada!

Nada… estou cansado, só isso.’

Quando chegarmos eu faço-lhe uma massagem e fica como novo!... Bernardo, Amor, você está mesmo cansado! Enganou-se no caminho… a sua casa fica para trás!’

Não, não me enganei. Eu vou levá-la a casa. Estou muito cansado. Desculpe, mas preciso mesmo de descansar!’

Mas Amor, as minhas massagens são mágicas. Você sabe disso’. Enquanto falava Beatriz ia passando a mão pelo rosto de Bernardo, que ia inclinando a cabeça para o lado da porta.

Bernardo, você está a evitar-me? Afinal que se passa?’

Nada, Beatriz! Já lhe disse que nada. Estou cansado, muito cansado e quero descansar!’

Mas está cansado de quê?’

Tinham chegado a casa de Beatriz. Como era habitual, Bernardo parou o carro, saiu e abriu a porta de Beatriz para que ela saísse. Deu o braço a Beatriz, bateu a porta e levou-a até à porta de casa. Em silêncio, esperou que Beatriz tirasse a chave da carteira.

Só uma coisa lhe invadia o pensamento: Alfredo. De onde o conhecia aquele homem?

Boa noite Bernardo.’

Mais uma vez foi chamado à realidade. Beatriz entretanto tinha encontrado a chave e despedia-se agora dele.

Boa noite Beatriz. Durma bem.’

Não me dá um beijo?’

Bernardo inclinou-se para beijar Beatriz, que num gesto rápido agarrou-lhe a gravata e beijou-o intensamente. Largou-o quando quis e entrou dentro de casa com um: ‘Sonhe comigo’

Mal se libertou de Beatriz Bernardo depois de um seco ‘Boa noite’ dirigiu-se para o carro quase em passo de corrida.

Entrou no carro, recostou-se no banco, fechou os olhos e respirou fundo. Depois de uns segundos assim, abriu os olhos, ligou o carro e arrancou a toda a velocidade em direcção a casa.

Não dormiu naquela noite. A imagem daquele homem não lhe saia da mente.

Tinha um julgamento no dia seguinte. Ia ser duro. Não podia perder… seria a primeira vez! Não podia deixar a boa fama que ia ganhando por mãos alheias. O seu nome, cada vez mais, valorizava na praça.

Mas nem tudo era mau. Quando chegou ao escritório foi informado que o julgamento por ordem do juiz havia sido adiado.

António tinha saído para um outro julgamento. Meteu-se no gabinete e depois de dar ordens à secretária para que não fosse incomodado, fechou a porta.

Tinha de decidir. E tinha pouca escolha!

As dívidas ao banco avolumavam-se a passos largos. E não via forma da situação se inverter. Beatriz tinha gostos caros e ele era orgulhoso demais para permitir que Beatriz o sustentasse!

As coisas tinham melhorado desde que António Augusto lhe passara a pagar como advogado e não como estagiário.


Bateram à porta do gabinete.

Eu já disse que…’. Não acaba a frase, pois no preciso momento em que levanta a cabeça, dá de caras com Alfredo.

‘… quem o deixou entrar?’, muda de discurso.

Sr. Doutor, não tive hipótese, este senhor…’

Não faz mal, Sónia, pode sair. Mas agora por favor. Estou mesmo ocupado, mesmo para o Dr. Abrantes…’

‘…E para a D. Beatriz.’, rematou Alfredo com ironia, perante o olhar arregalado de Sónia, a secretária.

Sónia saiu, sem mais perguntas, fechando a porta atrás de si.

Antes que Bernardo o convidasse, o homem sentou-se na cadeira em frente de Bernardo e com o mesmo à-vontade do dia anterior:

Então não me oferece uma bebida? Eu sei que ainda é cedo para beber, mas de manhã…’

Bernardo levantou-se, dirigiu-se à mesa das bebidas e sem mais comentários: ‘ Whisky, Gin, Vodka, Porto…’

Café, mesmo. Tem?’

Bernardo dirigiu-se para a porta, abriu-a e deu ordens a Sónia para que trouxesse dois cafés.

Voltou para a secretária, e num tom calmo, continuou: ‘A Sónia já traz os cafés’.

Muito bem, podemos então começar a falar de negócios. Para o ajudar a decidir trouxe-lhe isto.’. Alfredo pousou um envelope branco em cima da secretária a meio dos dois.

Bateram à porta. Era Sónia com o café. Impaciente, enquanto Sónia servia os cafés, Bernardo pegou no envelope e fixou o olhar no de Alfredo, que também o mirava com um olhar desafiador.

O telemóvel voltou a tocar. Bernardo depois de ver o número, acomodou-se na cadeira, como se pudesse ser visto e atendeu. Era da Suíça.

-Outra vez? Ainda nem há meia hora falei com ele! Não, não sei dela. Achas que ela foi porque eu quis?

… claro que sei que ela é uma peça importante. Podemos amanhã, mas eu já disse que preciso de uma semana. Sem a Maria não consigo desbloquear a verba para o transporte

… eles só mandam o quadro depois de o pagar e preciso da assinatura da Maria.

… Não, não sei dela.

… já estou a tratar disso!

… até amanhã.

Depois de desligar dirige-se à porta do gabinete e chama pela secretária:

-Mariana, pode chegar aqui, por favor?

Mariana era a secretária de Bernardo. Mariana tinha ido trabalhar para o escritório durante uma licença de maternidade de Sónia. Há muito que a relação deles já tinha passado o campo profissional.

A verdade é que Mariana era uma jovem a que poucos homens ficavam indiferentes à sua presença. Logo no primeiro dia, Bernardo se encantou com a rapariga.

Quando Sónia voltou, Mariana passou a assistente de Bernardo. Bernardo estava numa fase de grande ascensão profissional e já se justificava ter uma assistente.

Foi preciso pouco tempo para que se tornassem amantes. Do ficarem a trabalhar até mais tarde, a irem comemorar uma causa ganha, depressa as suas noites passaram a acabar num hotel ou no apartamento de Bernardo, quando não eram no sofá do gabinete, no mesmo onde ele teve noites de grande prazer com Beatriz.

Era uma relação clandestina que todos sabiam existir mas que ninguém denunciava.

Era um autêntico jogo do gato e do rato, aquela relação.

Beatriz, apesar de ter ciúmes, tratando-se para mais de uma rapariga d a idade das filhas dela, nada dizia pois para além de ser um bom disfarce para a sua relação com Bernardo, tinha medo que bernardo a deixasse definitivamente. Tinha consciência de que agora ele já não precisava tanto dela como antes. Já tinha alcançado uma posição quer social, quer profissional que lhe permitiriam sobreviver a um corte com Beatriz. Bernardo transformado num homem charmoso e elegante, capaz de encantar qualquer um.

António Augusto, apesar de reprovar a relação de Bernardo com Mariana, tinha encontrado no silêncio a forma de os manter discretos na relação. Para além disso, talvez Bernardo se cansasse de vez de Beatriz, como os demais amantes que ela tivera ao longo dos anos.

Os momentos mais complicados eram os em que Beatriz aparecia no escritório e usando do seu estatuto de esposa do patrão, fazia de Mariana uma moça de recados.

Mariana apareceu à porta do gabinete. Ao fim destes anos todos, continuava a ser uma mulher atraente. Mantinha os longos cabelos negros e o corpo dos vinte anos.

- Sim, Bernardo…

- Preciso que me telefones para as companhias de aéreas a saber para onde Maria viajou.

- Mas tu não tinhas ficado de a ir buscar?

- Pois ela tinha-me pedido que a levasse ao aeroporto, mas não me disse para onde ia. Só que me atrasei na reunião com o Alfredo e quando cheguei a casa ele já tinha saído. O pior é que preciso dela para assinar a procuração para poder receber o dinheiro da venda da quinta de Santarém.

- Pois a Beatriz e a Toninha estão controladas…

- …e a Beatriz não sabe nada?

- Não, raios partam a velha. Desde que casou com aquele Playboy ainda ficou mais estúpida!

- Tem calma, tudo se resolve. E se programássemos algo para logo? Ainda tenho no frigorífico uma garrafa de Moet et Chandon. Eu pedia o jantar e depois via-se…

- Não Mariana, hoje não estou com disposição para jantares. Estou cansado, quero dormir e…

- Já percebi tudo. É sempre assim. Não consegues ficar indiferente à Beatriz!

E. sem dar hipótese a Bernardo de responder vira-lhe costas.

Bernardo levanta-se num repente da cadeira e agarra-lhe o braço antes no momento em que ela punha a mão à porta. Empurra-a contra a porta e, quase a encostar o nariz no dela:

-Eu já te disse que a Beatriz não era para aqui chamada! Beatriz é passado…

-Ok, agora deixa-me, tenho mais que fazer…

E logo que se libertou de Bernardo, Mariana saiu porta fora, batendo-a com violência.

Bernardo voltou para a cadeira, abriu a gaveta da secretária e de debaixo de um monte de papeis tirou um envelope.O envelope que Alfredo lhe dera naquele dia.

Bernardo não queria acreditar quando abriu o envelope. Eram fotos dele com Beatriz nos momentos mais intimos.

As suas feições mudavam à medida que via as fotos, sentia-se empalidecer. As pernas tremia, as forças faltavam. Fossem ele lá quem fossem, tinham-no na mão!

Alfredo apercebeu-se do estado de fragilidade em que o deixou e perante isso:

-Presumo que já tenha decidido.

-Tenho alternativa?- perguntou Bernardo. Sentia-se um animal encurralado. Nunca assim se tinha sentido, nem mesmo quando Beatriz o ameaçava.

-Caro Dr. Sousa, … é assim que gosta que lhe chamem, não é?... continuo a dizer que a decisão está do seu lado. Mas se continuar com duvidas, temos mais dados que se podem tornar relevantes… e reveladores…

Apeteceu-lhe dar um murro a Alfredo. Aquele homem estava a deixá-lo enraivecido. Sentia o chão fugir-lhe debaixo dos pés e só tinha um caminho:

- Aceito, mas com uma condição…

-Atenção Dr. Bernardo Sousa, não creio que esteja em condições de impor condições…


quarta-feira, 3 de Junho de 2009

5 – Lisboa início de 1997 (IV)

- A entrega do Manet está atrasada, Bernardo – ouve do outro lado da linha.
- Sim, a entrega está atrasada, mas surgiram uns imprevistos que já estou a tentar resolver. Dentro de uma semana, penso ter o quadro em Portugal.
- Tens uma semana, nem um dia mais para terminares a tua parte do trabalho. Não te atrases, sabes que tens a cabeça a prémio. A chefe não está a gostar da tua prestação.
- Que se lixe a chefe. Se ela quiser que venha falar comigo!
- Não me faças rir. Ora tu, um mero peão a falar com a chefe. Não me faças perder tempo. Tens uma semana... - disse desligando o telefone.
Bernardo atira com o telemóvel para cima da mesa - 'Mas quem é que este fulano pensa que é? Ainda por cima a chamar-me peão. O Bernardo Homem de Sousa não é peão de ninguém.'
Embora sem se dar conta, Bernardo era sem dúvida uma peça de pouca importância numa organização criminosa de traficantes de obras de arte roubadas na qual tinha entrado quase sem dar por isso, um ano e meio depois de ter começado a ser amante de Beatriz. Aliás, foi mesmo numa recepção a que foi com ela que conheceu o Alfredo Gomes com quem tinha acabado de falar.

Tudo aconteceu numa altura em que Bernardo se sentia extraordinariamente bem. O romance com Maria Rosa tinha acabado há mais de um ano e ele com pouco esforço tinha conseguido não sair nada mal com a situação.
Maria Rosa tinha desaparecido completamente da sua vida. Ainda tinha tentado telefonar-lhe, mas nunca tinha conseguido falar com ela. Que não estava em Lisboa ou que estava indisposta eram as respostas que recebia de quem lhe atendia o telefone. Depois de três ou quatro telefonemas, desistiu completamente. O facto de Maria Rosa estar grávida e de ter a certeza absoluta de que esse filho era seu nunca lhe causou demasiado transtorno. Quando pensava neste assunto acabava sempre por admitir que nada tinha nada a ver com ele uma vez que Maria Rosa afirmara peremptoriamente que aquele filho era só dela.
Qualquer pensamento mais negativo que Bernardo tivesse relativamente à situação da antiga namorada era rapidamente rebatido pelo facto de estar a viver intensamente o romance com Beatriz.
Encontravam-se quase todos os dias ao final da tarde no apartamento que entretanto tinha alugado na Avenida João XXI.
Tinha sido um achado aquele apartamento. Os apartamentos na João XXI eram extremamente caros e existiam muito poucos para alugar. Bernardo tinha um ordenado razoável, mas que não dava para grandes luxos. De qualquer forma, não pretendia morar fora da cidade de Lisboa, por um lado porque se assim fosse, teria que enfrentar filas da trânsito enormes para chegar ao escritório e por outro, porque tal dificultaria muito os encontros com a sua amante.
Negociou o aluguer até ao centavo e conseguiu um preço bastante em conta por três assoalhadas. Era o ideal para si, com a sala um quarto e um escritório. A localização permitia-lhe ir e vir dos escritórios da Vieira de Abrantes a pé.
No dia em que se mudou, Bernardo sentiu-se realizado. O jovem de Alpedrinha, de origens humildes tinha conseguido um bom emprego, uma amante de sonho e agora tinha também um lar.
Beatriz gostou do apartamento. Era antigo, mas tinha sido reformulado recentemente. A mobília e a decoração eram um pouco minimalistas de mais para o seu gosto, mas estavam bem para um homem a viver sozinho.
Passaram a encontrar-se todos os dias no apartamento de Bernardo para se entregarem durante várias horas aos prazeres da carne. A timidez e o deslumbramento iniciais de Bernardo foram a pouco e pouco desaparecendo e as suas atitudes criativas e dominadoras começaram a encantar Beatriz que cada vez se sentia mais envolvida emocionalmente naquela relação.
Para além destes encontros diários, Bernardo e Beatriz continuavam a frequentar os mais variados eventos sociais a que António Augusto faltava por falta de vontade.
Segue-se ao aluguer do apartamento, a compra do primeiro carro. Embora tal não se justificasse para ir e vir do trabalho, Bernardo detestava usar sempre o carro de Beatriz quando saiam juntos. Comprou um utilitário de gama média que o obrigou a fazer um empréstimo bancário. Não gostava desta situação, mas era a única forma de poder ter um carro à sua altura.
O esforço financeiro a que Bernardo se sujeitava com o aluguer do apartamento, a prestação do carro e as despesas em restaurantes e festas de luxo, começou a ser demasiadamente elevado. O vencimento mensal da Vieira de Abrantes e Associados não era suficiente para o estilo de vida que levava. Teria que encontrar rapidamente uma solução que lhe permitisse aumentar os seus rendimentos mensais.
Nunca deu conta desta situação a Beatriz. Tinha vergonha de assumir perante uma mulher que estava em dificuldades. Aliás, para que Beatriz nem sequer imaginasse que alguma coisa de errado se passava, passou a insistir em pagar todas as despesas que faziam quando estavam juntos. Os fins-de-semana que passavam fora de Lisboa, pelo menos uma vez por mês eram sempre pagos por Bernardo com o seu cartão de crédito.
Beatriz, com uma intuição bastante apurada, sabia muito bem que o que Bernardo ganhava na empresa do seu marido não era o suficiente para levar a vida que levava. Resolveu, porém, que não faria nada para dar a entender que sabia. Estava realmente apaixonada e começa a sentir-se insegura por causa da diferença de idades entre os dois. O facto de Bernardo querer pagar todas as despesas era como que uma garantia de que queria estar com ela.
Houve porém, uma situação que levou Bernardo a falar neste assunto. Tinham combinado passar um fim-de-semana numa pousada em Évora e, como sempre, era Bernardo quem estava encarregado de fazer todas as marcações e pagamentos. Mas, quando se preparava para fazer os pagamentos na agência de viagens, o seu cartão de crédito tinha sido cancelado pelo banco por falta de pagamento. Não havia outra solução se não cancelar todas as reservas e inventar qualquer desculpa para Beatriz.
Telefonou-lhe para casa, mas ela já não estava. Respondeu-lhe uma das criadas que lhe disse que a senhora tinha saído de fim-de-semana e que só voltaria no Domingo à noite.
Bernardo resolveu ir para casa e esperar que Beatriz por la passasse como era costume nos fins-de-semana em que saiam de Lisboa.
Beatriz chega à hora combinada.
'Bernardo meu querido, vamos já sair, assim chegamos a Évora ainda cedo.'
Sem saber o que fazer, Bernardo diz:
'Olá Beatriz. Lamento, mas neste fim-de-semana vamos ter que ficar em Lisboa.'
'Como assim? Passa-se alguma coisa. Está com um ar estranho, Bernardo. Não se está a sentir bem?'
'Na verdade não me estou a sentir nada bem Beatriz.' - responde Bernardo.
'Mas o que se passa? Precisa de um médico? O que é que sente?'
'Não me estou a sentir mal fisicamente. Não preciso de médico nenhum. A única coisa de que preciso é coragem, para lhe dizer o motivo pelo qual não podemos ir de fim-de-semana.'
Não vendo como justificar-se, Bernardo tinha decidido contar a verdade.
'Mas o que se passa de tão grave assim? Não me diga que a sua antiga namorada lhe ligou!'.
Beatriz fala de Maria Rosa, porque sempre sentiu algum ciúme e insegurança pelo que Bernardo tinha vivido com ela. O facto de nunca mais terem falado da antiga namorada aumentava ainda mais a sua insegurança, uma vez que acabava por não saber se algum contacto entre os dois se mantinha.
'Não é nada disso. A Maria Rosa não tem nada a ver com isto. Aliás, não tenho notícias dela já há meses!
'Então diga Bernardo, eu não vou estar para aqui a adivinhar o que se passa consigo! - responde Beatriz cada vez mais ansiosa.
'O assunto tem a ver comigo e só comigo, Beatriz!'
'Estou a ficar ansiosa e preocupada. Diga de uma vez por todas. Somos dois adultos e você esta a agir como uma criança.' - insiste Beatriz.
'A verdade Beatriz é que eu não tenho dinheiro para pagar as despesas do fim-de-semana. O banco cancelou o meu cartão de crédito.' – desabafa Bernardo com um suspiro profundo.
‘Bernardo é só isso? Pensei que era uma coisa mais grave! Assustaste-me.’
‘Mais grave Beatriz? Não achas que a situação é grave? O meu cartão de crédito está cancelado e não tenho dinheiro sequer para pagar a prestação do carro.’ – diz Bernardo já fora de si.
‘Vamos resolver isso facilmente. O fim-de-semana já está cancelado e por isso essa questão já está resolvida. Quanto à questão do carro eu vou emprestar-te o dinheiro para a prestação deste mês.’
E assim foi, naquele mês e nos meses que se seguiram. Bernardo conseguiu saldar algumas das suas dívidas com ajuda de Beatriz e sem que António Augusto soubesse do sucedido. Beatriz sentia-se confortável com a situação, pois ao emprestar dinheiro a Bernardo, a sua insegurança relativamente a ele diminuía. ‘Ele não vai pensar noutra mulher! Agora temos algo mais que nos liga. ‘ – pensava erradamente.
Bernardo por seu lado encontrava-se numa situação tudo menos confortável. Não suportava a ideia de dever dinheiro a Beatriz indefinidamente. Tinha que encontrar uma maneira de lhe pagar o mais rapidamente possível, mas não conseguia encontrar uma solução. A única coisa que poderia fazer era deixar o apartamento da João XXI e tentar alugar um outro mais barato. O carro não poderia vender porque certamente o dinheiro da compra não daria para pagar o empréstimo correspondente.
Para além das dívidas, havia ainda outra questão que provocava mau estar a Bernardo. Era um homem e, por isso, não suportava estar a ser ajudado por uma mulher. Sentia que era a sua masculinidade que estava a ser posta em jogo e isso atingia como uma farpa o seu monstruoso ego de jovem advogado de sucesso.
Foi nesta altura que aconteceu algo que viria a dar nova reviravolta na sua vida.
Após ter recusado vários convites de Beatriz para festas e outros eventos sociais, Bernardo resolve aceitar um convite para uma recepção na Embaixada da Suíça. Claro que o convite tinha sido dirigido pelo Embaixador ao Dr. Vieira de Abrantes e sua esposa, mas António Augusto nem chegou a saber da sua existência, uma vez que era Beatriz quem tratava de todos os assuntos sociais. Como não era usual a embaixada da Suiça fazer este tipo de recepções, Beatriz exigiu que Bernardo a acompanhasse. ‘Bernardo vai estar lá toda a gente importante de Lisboa. É uma óptima oportunidade para si. ‘ – diz-lhe Beatriz ao telefone.
Chegados à embaixada, Beatriz e Bernardo rapidamente encontram várias pessoas conhecidas e depressa se tornam o centro das atenções quando Beatriz, ao ser cumprimentada pelo embaixador, lhe apresenta Bernardo como seu amante. Era assim aquela mulher, adorava ser o centro das atenções. Conseguiu por um momento que todos se calassem e aproveitou a ocasião para dizer a todos que, evidentemente Bernardo não era seu amante, caso assim fosse nunca o diria em público, mas que aproveitava para apresentar aos que ainda não conheciam, o jovem advogado mais promissor de Lisboa.
Bernardo, habituado que estava às excentricidades de Beatriz, aproveitou a ocasião para referir que a sua amiga era uma exagerada e que tinha muito gosto em conhecer todos os presentes. Na realidade o seu ego era alimentado por estes pequenos acontecimentos e, embora lhe fosse difícil admitir, gostava que Beatriz agisse daquela forma.
Para além das pessoas que sempre apareciam nestes eventos sociais da cidade de Lisboa, havia nesta recepção do Embaixador da Suíça um grupo de indivíduos que nem Bernardo nem Beatriz tinham alguma vez visto e que estiveram sempre separados dos outros convidados. Falavam em francês o que indicava que alguns seriam estrangeiros. Suíços pensaram.
A dada altura, enquanto Beatriz falava com um grupo de amigas, Bernardo fica por momentos sozinho. Aproveita para observar a luxuosa decoração da Embaixada. Repara num Picasso que se encontrava mesmo a seu lado e que identifica imediatamente como sendo um dos trabalhos da juventude do pintor. As visitas que fazia a museus e exposições quando namorava com Maria Rosa tinham enraizado em si o gosto pela pintura. Para além disso, as leituras que fazia por lazer eram essencialmente sobre pintores e pintura. Não lhe era, por isso difícil fazer tal identificação.
Estava perdido nestes pensamentos quando sente que alguém lhe toca no ombro. Vira-se imediatamente pensando ser um dos seus conhecidos, mas depara-se com um estranho que, curiosamente, tinha notado no grupo que estivera sempre separado dos restantes convidados.
‘Boa noite Dr. Bernardo Nuno Homem de Sousa, pelo que vejo aprecia obras de arte.’ – disse o estranho.
‘Boa noite. Sim é verdade, não sou nenhum perito, mas sei apreciar aquilo que é realmente bom.’
‘Eu sei que assim é’ – reponde o estranho com um ar de ironia que intimida Bernardo.
‘Já agora, posso perguntar-lhe como sabe o meu nome? Não me lembro de termos sido apresentados.’
‘Não é difícil saber o seu nome, a senhora que o acompanha fez questão de o apresentar a todas as pessoas que aqui estão. ´
‘É verdade. Mas não me lembro que tenha referido o meu nome completo.’ – responde Bernardo, já bastante incomodado. Na verdade o à-vontade com que aquele estranho se lhe estava a dirigir era fora do comum.
‘Não se lembra? Estou a ver que é perspicaz. Tem razão, a Beatriz Vieira de Abrantes não disse o seu nome completo.’
‘ Devo dizer-lhe que não estou a gostar da conversa que estamos a ter. Eu não o conheço e portanto exijo-lhe que me fale noutro tom.’
‘Acalma-te Bernardo, eu sei mais sobre ti do que o que possas imaginar.’ – responde o estranho.
Bernardo nesta altura ficou fora de si. Aquela pessoa que não conhecia de lado nenhum, tinha começado a tratá-lo por tu.
‘Por favor não me trate por tu. O senhor não me conhece, por isso, deixa-se de intimidades.’
‘Baixa a voz Bernardo, não vamos chamar a atenção. Eu chamo-me Alfredo Gomes e negoceio obras de arte. A organização para a qual trabalho tem sede na Suíça e precisamos de um contacto em Portugal porque há uns negócios em perspectiva por aqui. Sei que estás com muitas dificuldades financeiras. Com o que ganhas na Vieira de Abrantes Associados não vais conseguir manter a vida de “playboy” rico que queres para ti. Aprecias arte, sobretudo pintura, o que junta o útil ao agradável. Tens oportunidade de ganhar uma boa quantia em dinheiro que resolverá imediatamente todos os teus problemas. Só tens que fazer o que te dizem, mantendo o bico calado.'
Bernardo não sabia o que responder. Mais do que a proposta que lhe estava a ser feita, incomodava-o o facto daquele homem saber tudo sobre a sua vida. Como era possível que soubesse que estava com problemas financeiros se só tinha comentado tal facto com Beatriz?
‘O que dizes? Aceitas? É a tua salvação financeira.’
‘Penso na sua proposta depois de me dizer como conseguiu essas informação sobre mim.’
‘A organização não brinca, Bernardo. Nós temos os nossos meios para obter informações que só a nós dizem respeito. A Beatriz já vem aí. Fica com um cartão meu. Liga para esse número com uma reposta, amanhã. Sem falta.’
Ao dizer isto o estranho, que Bernardo duvidava que se chamasse realmente Alfredo Gomes, afasta-se para ir de novo integrar-se no seu grupo.
Assim que Beatriz chega junto de si, pede-lhe para saírem imediatamente dali. Não se estava a sentir bem. Estava atónito com o que se tinha passado. Uma dúvida não deixava de o perturbar. ‘Como é que este homem sabe tudo sobre a minha vida?’

sexta-feira, 29 de Maio de 2009

5 - Lisboa 1995 (III)

Bernardo, acomoda-se na cadeira. 'Maria Rosa! ‘.

Dois dias depois daquela cena recebeu um telefonema de Maria Rosa. Tinha urgência em falar com ele, que era um assunto do interesse dele.

Encontraram-se no jardim da Gulbenkian. Tinham marcado para as cinco da tarde.

Quando Bernardo chegou, passavam cinco minutos das cinco. Maria Rosa estava de óculos escuros. Bernardo aproximou-se e inclinou a cabeça para a beijar. Ela desviou a cara e esticou-lhe a mão:

'Boa tarde Bernardo, estás bom? ‘

'Olá Maria Rosa. Como estás? ‘, Disse ele a medo e com a voz trémula.

'Estou bem, pedi para nos encontrarmos porque há uma coisa que deves saber...' e sem rodeios Maria Rosa continuou '... Estou grávida'

Bernardo ficou paralisado em frente a ela. Começou a ver a vida dele toda a mudar de rumo. A ver-se a casar na terra com Maria Rosa, a ter de arranjar outro emprego. Beatriz nunca iria aceitar o casamento deles. Já via a seguir a esta criança, outras a virem. A viverem num apartamento na margem sul, a ter de fazer a travessia, de cacilheiro, todos os dias...

'Bernardo, estás a ouvir-me? ‘

A voz de Maria Rosa chamou-o à realidade. ‘Sim, estou-te a ouvir…’

‘…e eu tenciono ter este filho! ‘

‘E agora o que me vais dizer a seguir? Que queres casar, porque és uma rapariga decente…’

‘Pára Bernardo. Nada disso. Só vim aqui dizer-te que ias ser pai! O resto não me interessa. ‘

‘Já contou aos teus pais? ‘, perguntou Bernardo no momento em que começou a imaginar o escândalo que iria ser em Alpedrinha.

‘Não, vou este fim-de-semana a casa e vou contar tudo aos meus pais.’

‘Tudo?’

‘Sim, tudo. Vou-lhes dizer que espero um filho teu, que acabamos tudo e que vou ter este filhos…’

‘Espera lá menina. Como é que sei que o filho é meu!?’, perguntou Bernardo cinicamente. ‘Ninguém…’

Não conseguiu acabar a frase. Maria Rosa deu-lhe uma bofetada e, antes de lhe virar as costas disse: ‘Não te vou responder. Esta é pelo outro dia!’


Bernardo sentado na cadeira de António Augusto passa a mão pela cara. Ainda sente a marca dos dedos de Maria Rosa na cara. Ainda sente a humilhação daquele momento. Nunca uma mulher lhe tinha batido e muito menos esperava-o de Maria Rosa.

‘Mosca morta!’, resmunga, com a mão ainda na cara.


No fim-de-semana que se seguiu ao encontro no jardim, Bernardo foi também à terra. Ia decidido a resolver o assunto de uma vez por todas. Ia falar com o pai de Maria Rosa e dizer-lhe que queria casar com ela. Depois via-se. Talvez não fosse má ideia casar…

Entrou no autocarro e, perante o ar dela de assustado e surpreendida, sentou-se a seu lado.

‘Que fazes aqui?’, perguntou ela entre dentes.

‘Vou à minha terra, sou de Alpedrinha, lembras-te? Ou não posso?’

‘Podes, claro que podes. Estou admirada, como arranjaste tempo para ir à terra…’

‘É, tenho de ir resolver um assunto…’

‘Um assunto!? Deixa-me adivinhar: vais falar com o pai da tua antiga namorada e vais-lhe dizer que ela está grávida e que não queres casar com ela porque não tens a certeza se o filho é teu…’

‘Conheces-me mesmo mal! Achas que eu… pois desculpa o outro dia. Não foi sentido aquilo. Claro que o filho é meu.’

‘Bernardo, de uma vez por todas, eu não vou casar contigo e este filho é meu, só meu! E agora, por favor, muda de lugar. Não te quero aqui a meu lado.’

‘Não te estou reconhecer! Tu és uma sonsa. Este tempo todo a fazeres-te de santinha. Sonsa!’

Levantou-se e foi sentar-se no fundo do autocarro.

Estava decidido a levar a farsa até ao fim. No Domingo no fim da missa esperou pela família de Maria Rosa à porta da igreja e comunicou-lhes que queria juntar as duas famílias, pois tinha um assunto para tratar com eles.

‘Claro meu rapaz. Aparece mais os teus pais lá em casa depois do almoço. Para almoçar já é tarde e jantar não dá, mas pronto lanchamos e falamos.’

Maria Rosa era a única ausente. Tinha ficado em casa. Estava indisposta e não tinha ido à missa.

As duas famílias cumprimentaram-se com abraços apertados a antever o motivo da reunião. O anuncio do casamento dos seus filhos. Só podia ser isso…

Assim foi. Depois de almoço, Bernardo vestiu um fato e pôs uma gravata de seda de que gostava particularmente. Tinha sido um dos presentes mais recentes de Beatriz. Sentia-se poderoso com ela. Era de uma marca italiana cara e era a gravata que usava naquele noite em que pela primeira vez se sentiu um verdadeiro homem. Aquela noite inevitavelmente tinha marcado o poento de viragem da vida dele. Jamais a esqueceria. Para ele tinha sido naquela noite que perdera a virgindade e não naquele distante dia de verão com Maria Rosa…

Quando Maria Rosa abriu a porta e viu Bernardo ficou se respiração. Conteve-se quando viu os pais de Bernardo atrás dele com um sorriso de orelha a orelha.

Cumprimentou Bernardo como era a habitual e logo se apressou a cumprimentar os ‘futuros sogros’.

Havia uma mesa posta para o lanche.

Bernardo sentia-se desconfortável e não era o assunto da visita que o punha assim, mas o ambiente. Sentia que já não pertencia ali. ‘Que pobreza!’, era o que pensava. Tudo lhe parecia mal, tudo lhe parecia ridículo. Só queria tratar do assunto e desaparecer. Preocupava-o ter de conviver com aquela gente por para ávida toda, mas havia de pensar numa forma de resolver essa parte. Agora só tinha mesmo era de sair dali, mas depois de resolver o problema. E antes que outras conversas, começou.

‘Bom, o motivo que me traz aqui é o mais esperado e obvio…’ fez uma pausa para procurar Maria Rosa, que estava sentada em frente a ele ao lado da mãe. ‘…eu e a Maria Rosa queremos casar. Achamos que já é altura certa. Ela…’

‘… ela não quer casar contigo!’ , interrompeu Maria Rosa. E continuou: ‘ Ele só quer casar comigo porque eu estou grávida e tem remorsos porque me andou a trair!’ E perante o olhar incrédulo de todos continuou: ‘Andou a trair-me com a mulher do patrão, uma mulher que podia ser mãe dele!’

O ar de espanto generalizou-se nas pessoas da sala. Bernardo, por incrível que parecesse, sentia-se aliviado com as palavras de Maria Rosa. Com o ar mais cândido deste mundo, disse: ‘Ó meu amor, tínhamos combinado que este seria o nosso segredo, que não havia necessidade de te expores desta forma!’ E continuou. ‘Ela tem andado muito nervosa com esta questão da gravidez. Como pessoas católicas que somos, sentimo-nos mal com o sucedido, mas está, está… e também não é assim nada de tão grave…a final mais tarde ou mais cedo íamos casar. É só o antecipar das coisas!’

Maria Rosa chorava compulsivamente, enquanto era reconfortada pela mãe que ia dizendo: ‘Ó filha, não te martirizes. Nós estamos aqui para vos apoiar. Ninguém precisa de saber, mas a nós podias ter dito. Nós somos teus pais…’

‘Ó Mãe,…’, Maria rosa não conseguia falar que não fosse aos soluços, …’ mas eu não quero casar. Ele anda a fazer coisas horríveis…’. E sem dizer mais nada levantou-se e refugiou-se no quarto.


Enquanto muda de posição na cadeira, Bernardo, recorda como foram as coisas depois desse dia.


Ele voltou para Lisboa e Maria Rosa ficou na terra. Não houve casamento. Ninguém conseguiu convencer Maria Rosa. Quanto a ele, manteve sempre a sua posição e sempre ia insistindo no casamento e cada nega de Maria Rosa soava-lhe a uma vitória.

Soube que Maria Rosa voltou para Lisboa uns meses mais tarde, quando a barriga se começou a notar. Era para evitar o falatório da aldeia. Tinham decidido que Maria Rosa ficaria em Lisboa onde nasceria o filho. Ficaria a viver com Rosalina, a sua antiga colega de quarto na residência universitária.

Mesmo assim o falatório na aldeia não se evitou. ‘A Maria Rosa estava grávida e tinha-se recusado a casar com o Bernardinho’. ‘Se calhar o filho não é dele, é por isso. Estas raparigas vão para Lisboa, apanham a rédea solta e é isto! Coitado do Bernardinho, pediu-a em casamento e tudo e ela não aceitou… é porque tem outro em Lisboa… até está para lá!’.

E foi assim que todos ficaram do lado de Bernardo.


Bernardo é chamado ao presente com o toque do telemóvel. Endireita-se na cadeira, como se o pudessem ver, ajusta o nó da gravata e atende.

quarta-feira, 27 de Maio de 2009

5 – Lisboa 1995 (II)

Bernardo, deslumbrado com a sua situação profissional e sentimental, não sabia como agir face a Maria Rosa. Cada vez era mais difícil enfrentá-la cara a cara. Os seus olhos tristes começaram a despertar no jovem advogado de sucesso um sentimento de pena, que o deixava incapaz de colocar um ponto final naquela relação que já nada lhe dizia. Havia ainda o problema dos pais da rapariga e dos seus próprios pais que aguardavam o regresso dos dois jovens e a celebração do seu casamento. Eram um casal modelo na terra, um exemplo de uma linda história de amor. De origens humildes, os jovens estavam a triunfar em Lisboa e voltariam à terra para casar e trabalhar. Voltar já não estava nos planos nem de Bernardo nem de Maria Rosa, mas casar era um problema maior. A jovem continuava apaixonada e começava a sentir-se insegura. Era nítido que Bernardo andava a evitá-la uma vez que quase todos os dias lhe dizia que tinha que ficar no escritório da Vieira de Abrantes Associados até tarde uma vez que era o advogado mais jovem e tinha que demonstrar o que valia ao doutor António Augusto.

Na realidade Bernardo passava muito tempo no escritório e não eram raras as noites em que saía exausto a altas horas da madrugada. Mas não era só isso, as saídas com Beatriz tinham-se tornado um vício a que não conseguia dizer que não. Sentia-se muito bem na sua companhia e as festas eram animadíssimas, cheias de gente bonita e sofisticada que o fascinava.

Os fins-de-semana em Alpedrinha tornaram-se raros. Dizia aos pais o mesmo que a Maria Rosa, o trabalho ocupava-lhe todo o seu tempo e era impossível não trabalhar aos Sábados e Domingos. Para não dar a entender à família que algo de errado se passava, Maria Rosa acabava também por ficar em Lisboa. Ficava sozinha e quase não saía. Tinha vivido quase exclusivamente para, e em função de Bernardo e praticamente não tinha amigos.

Quanto mais se afastava de Maria Rosa, mais Bernardo se aproximava e desejava Beatriz. Aos seus olhos a mulher de António Augusto era uma verdadeira Deusa. Desejava-a ardentemente e verificava que o seu sentimento era correspondido.

‘Bernardo, está lindíssimo hoje, um verdadeiro galã. A gravata que lhe dei fica-lhe lindamente. Olhe que eu ainda lhe tiro a gravata. A gravata e o resto’- diz-lhe Beatriz numa festa em frente a todos os seus amigos. O jovem envergonha-se, fica vermelho como um pimentão, não consegue articular palavra. ‘Estou a brincar, meu querido, mas lá que está lindíssimo está’.

Estes piropos de Beatriz, uma mulher com uma experiência de vida enorme, provocavam em Bernardo um sentimento ambíguo, por um lado odiava-a, porque o envergonhava em frente de toda a gente, por outro, desejava-a cada vez mais.

Criado no seio de uma família pobre, mas honrada, estas eram situações a que não estava habituado. Valores como o respeito, a honra e a fidelidade estavam enraizados na sua maneira de ser. ‘Mas eu sou homem e os homens são fracos.’ – pensava.

Trair Maria Rosa era uma situação que queria evitar a todo o custo. Nunca tinha tido outra mulher na cama que não a sua namorada. Aliás, nunca tinha beijado nem desejado outra mulher.
No dia em que fez amor com Beatriz, tudo mudou para Bernardo. Era tarde e estava ainda a trabalhar no escritório, completamente só. Tinha ligado a Maria Rosa a dizer que ficaria a trabalhar, embora fosse sexta-feira e tivessem combinado ir ao cinema. Sentia-se aliviado por não lhe ter mentido, apesar de tudo, não gostava de mentir-lhe, ela não merecia. Enredado na quantidade imensa de documentos que tinha em cima da secretária, não notou que alguém acabara de entrar sorrateiramente e o observava com um olhar de desejo. Beatriz tinha mais uma qualidade, quando queria, conseguia tornar-se quase invisível.

Passaram uns bons minutos até que o jovem notasse a presença da sedutora mulher. Quando a viu, reagiu com um misto de surpresa e excitação. Não era raro isto acontecer quando estava com Beatriz, mas o facto de se encontrarem sozinhos no escritório do marido da própria, aumentava o seu desejo.

‘Então Sr. Doutor, ainda está a trabalhar a estas horas? É sexta-feira, não foi encontrar-se com a sua namorada?'

Beatriz tinha-se vestido a rigor para a ocasião. Tinha um vestido vermelho escuro de tal forma justo que mostrava mais do que escondia. Aproximou-se da secretária do atrapalhado advogado e inclinou-se fazendo com que fosse impossível a Bernardo não reparar nos seus magníficos seios que desde que a conhecera desejava tocar.

‘É hoje que me vai deixar tirar-lhe a gravata... e o resto?’

‘Beatriz, sejamos razoáveis, estamos nos escritórios da empresa do seu marido. Não podemos, não devemos...’ – diz Bernardo, pensando ao mesmo tempo que a situação de perigo em que se encontravam ainda tornavam tudo muito mais excitante.

‘Não podemos porquê? O Bernardo tem algum problema? Não gosta de mim?’

‘Gosto, mas… e a Maria Rosa’?

‘Você não gosta da Maria Rosa. Ela não é mulher para si. Se fosse, estaria agora com ela, ou não?’
Bernardo não conseguiu articular mais nenhuma palavra. Deixou-se conduzir pelos encantos de Beatriz.

Mulher experiente nas artes da sedução e do sexo, Beatriz provocou em Bernardo sensações que o jovem nunca pensou que existissem. Amaram-se ardentemente durante toda a noite. Foram arrojados ao arriscarem ser descobertos pelo segurança numa das suas rondas nocturnas. Usaram o gabinete de António Augusto, numa atitude provocatória que levou Bernardo a explodir de prazer.

Beatriz, ao contrário de Maria Rosa, gostava de comandar, chegava a ser bruta com Bernardo, dando-lhe ordens e chamando-lhe todos os nomes possíveis e imaginários. Batia-lhe na cara nos momentos mais intensos e o jovem deixava-se levar pela emoção e prazer.

Já era manhã quando Beatriz saiu do escritório com um ‘Adeus Bernardo, até logo…’.

Bernardo não saiu logo. Ficou sentado na sua cadeira com um olhar extasiado. Nunca tinha sentido nada assim. Não imaginava que uma mulher lhe pudesse provocar tais sensações. Queria, mais, queria muito mais…

Quando, horas mais tarde, acordou do torpor em que mergulhou desde a saída de Beatriz, Bernardo sentia-se um homem novo. De repente Maria Rosa parecia ter deixado de ser um problema. Ia resolver as coisas com ela de uma vez por todas. Beatriz tinha razão, não era mulher para ele.

Ao dirigir-se a pé para o seu quarto numa pensão da baixa, as mais variadas ideias vão aparecendo na sua cabeça. Vai, de uma vez por todas, sair da pensão. Com o ordenado que ganha, pode perfeitamente alugar um apartamento, não precisa de nada luxuoso, mas precisa de um espaço com mais privacidade, agora que é amante de uma senhora da alta sociedade lisbonense. Vai também pedir um empréstimo para comprar um carro. Acaba por gastar uma boa quantia mensal nos táxis que utiliza para ir e vir das festas e, para além disso, já anda aborrecido de ter que usar o metro para chegar ao escritório. ‘Sou um advogado de sucesso, não tenho que andar de metro.’ – vai pensando com os seus botões.

Ao entrar na pensão, dá de caras com Maria Rosa que o espera na entrada.

‘O que fazes aqui Maria Rosa?’

‘Espero-te Bernardo, esqueceste-te do que tínhamos combinado para hoje?'

Bernardo olha para o relógio e verifica que é quase uma da tarde. Tinha-se esquecido completamente que, para compensar a sua ausência no dia anterior, tinha combinado um almoço com Rosa Maria seguido de um passeio na zona de Belém.

'O que se passa contigo, parece que não dormiste. Ainda estás com a roupa que usas no escritório. Não dormiste em casa?'

Atrapalhado, lá se explicou como pode. Que tinha ficado a trabalhar até muito tarde e acabado por adormecer num dos sofás do escritório, foi o que lhe ocorreu dizer. Afinal, em parte, era verdade. Tinha mesmo passado a noite no escritório.

'Vou só tomar banho, já volto aqui para sairmos. Desculpa o meu atraso.'

'Subo contigo.'

'Não! Não sobes, ficas aqui!' - responde intempestivamente Bernardo.

Assustada com esta atitude do namorado, Maria Rosa não respondeu e decidiu sentar-se num dos pequenos sofás da recepção da pensão.

Enquanto subia as escadas, Bernardo pensava no que tinha acabado de acontecer. Nunca tinha sido indelicado com Maria Rosa, aliás, nunca tinha sido indelicado com mulher alguma, e agora de repente e sem se dar conta tinha reagido bruscamente a um simples pedido da sua namorada, ao ponto de a deixar visivelmente assustada.

Não se reconhecia naquela atitude, mas de facto não se sentia mal por ter reagido daquela forma, pelo contrário, sentia até uma certa excitação, qualquer coisa estranha que não sabia bem definir, mas que lhe provocava um bem-estar que não reconhecia.

Tomou um banho quase frio e desceu ao encontro de Maria Rosa que o esperava ansiosa.
'Bernardo, o que se passa contigo? Não percebi a tua reacção de há pouco. Quando venho aqui costumo subir contigo ao teu quarto enquanto espero por ti.' - diz.

'Desculpa Maria Rosa. Dormi pouco e mal esta noite e não estava de muito bom humor. Foi só isso. Não leves a mal.'

'Que a tua atitude não se repita, por muito cansada que eu esteja, recebo-te sempre de braços abertos e com um sorriso. Aliás, os meus dias não têm sido fáceis, mas tu nem tens tempo para saberes de mim.'

'Pois é, agora acusas-me de não querer saber de ti, qualquer dia vais dizer que eu te traio com outra mulher.'

Ainda hoje Bernardo não sabe como aquelas palavras lhe sairam da boca. Na realidade ele tinha acabado de trair Maria Rosa e a necessidade que teve de abordar o assunto de forma tão brusca e inesperada, é coisa que ainda hoje não consegue compreender.

'E não andas a trair-me?' - pergunta-lhe Maria Rosa corajosamente mas temendo a resposta.

'Não, não ando.' - responde.

'Tornaste-te um mentiroso Bernardo. Eu sei com quem andas a dormir...'

Antes que Maria Rosa pudesse dizer mais uma palavra, Bernardo explode num ataque de fúria agredindo-a com um soco na cara que a derrubou para cima do sofá.

'O que se passa? Tenha respeito pela senhora, não se esqueça que está num local público.' - diz o pequeno homem, recepcionista e dono da pensão, que assistira a tudo.

'Não se meta nisto, ou quer levar levar um soco também?' - reage Bernardo.

'E tu vai-te embora, desaparece da minha frente, que eu tenho mais que fazer do que aturar as tuas acusações de mulher fraca e insegura. Não serves para mim.'

Maria Rosa, sai dali a correr. Estava cheia de dores na cara e chorava desalmadamente. Chorava de dor, de emoção e tristeza. Aquele já não era o seu Bernardo.

Ao vê-la sair, Bernardo pensou: 'Este problema já está resolvido'. Estava a ser frio e calculista, mas curiosamente, isso não o incomodava muito. Tinha voltado a sentir algum prazer ao agredir Maria Rosa e não sabia porquê.

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

5 - Lisboa 1995

Quando Beatriz fechou a porta, Bernardo, enquanto num acto de fúria bate com os punhos na secretária, quase aos berros diz: ‘Malditas! Tal mãe, tal filha. Duas inúteis! ‘

Estava sentado à secretária, na cadeira de António Augusto, marido de Beatriz. Não tinha sido fácil chegar àquela cadeira. Lembrava-se bem do dia em que chegou aquele escritório. Rapaz do interior, de uma aldeia perdida entre a Covilhã e o Fundão. Só com a bolsa de estudo da Gulbenkian tinha sido possível ir para Lisboa tirar o curso.

Aluno exemplar, entre os melhores do curso, não foi difícil conseguir estágio. Foi parar ao escritório de António Augusto por acaso. Estava ele no último ano do curso, quando um professor lhe perguntou se ele já tinha em vista onde estagiar.

Respondeu-lhe que não, até porque era assunto em que ainda não tinha pensado. Foi aí que o professor lhe propôs o escritório de Advogados Vieira de Abrantes e Associados.

Bernardo não era dado a noitadas nem a excentricidades. A sua vida em Lisboa, até então tinha sido entre a universidade e a residência universitária, onde vivia. Com a namorada encontrava-se nas cantinas ou nos fins-de-semana em que não iam à terra.

Maria Rosa e Bernardo conheciam-se desde sempre. Maria Rosa era filha do caseiro de uma quinta perto da casa de Bernardo e tinham, em conjunto grandes planos para o futuro. Maria Rosa estudava também em Lisboa. Cursava germânicas na Universidade de Letras.

O lugar predilecto para se encontrarem era o jardim da Gulbenkian. Diziam que era o jardim do ‘padrinho’ deles, pois era graças a bolsas de estudos da fundação com o nome dele que estavam a estudar em Lisboa.

Quando partiram de Alpedrinha tinham grandes planos. Voltar com os cursos, ele abrir um escritório em Seia e ela arranjar uma colocação como professora numa escola da zona.

Deslumbraram-se com Lisboa e esse deslumbramento fez-lhes crescer a ambição. Agora, quase na hora de regressar, já não queriam. Ficar em Lisboa passara a fazer parte dos planos deles. Maria Rosa ainda tinha pelo menos mais dois anos de curso e Bernardo o estágio para fazer. Até lá nada mudaria.

Para a entrevista com o Dr. Abrantes, vestiu o fato, o único que tinha e que tinha sido presente dos pais para a imposição de insígnias.

Foi recebido pela secretária que lhe pediu que aguardasse. Mal entrou no edifício sentiu-se num outro mundo, num mundo que não era o seu, mas que logo o ambicionou para si. Em poucos segundos as suas certezas mudaram. Era aquilo que queria para ele.

Recorda agora, que quando se viu em frente do Dr. Abrantes, sentiu-se mal. Mesmo com o fato novo, a melhor roupa que tinha, sentiu-se um maltrapilho.

Sorri enquanto se lembra do fato cinza rato que o pai lhe ofereceu para a imposição de insígnias. ‘Rapaz, não há dinheiro para trajes. Eu e tua mãe mandamos fazer um fato no alfaiate em Seia e é a nossas prenda de curso. Assim também já ficas com um fato para quando fores trabalhar’

Ao contrário da imagem que ele tinha dos advogados de nome, o Dr. Abrantes era um homem ainda novo. Teria passado há pouco a barreira dos cinquenta. Comparado com os professores, advogados de renome, que ele conhecera na universidade, era ainda uma criança.

Tinha um ar sereno e era um homem muito bem parecido, era muito simpático e depressa Bernardo se sentiu confortável na sua presença.

Logo na primeira entrevista, tudo ficou acordado.

A vida de Bernardo, desde que passou a porta de entrada daquele escritório, ficou virada ao contrário. Os seus planos com Maria Rosa deixaram de fazer sentido e a sua ambição crescia a cada dia. Tornou-se um workholick. A relação com Maria rosa começou a ressentir-se e as discussões eram frequentes.

O Dr. Abrantes era o seu ídolo. Tudo que ele fazia, tudo que ele dizia eram lei. Bernardo tentava imitá-lo em tudo. O seu sonho passou a ser só um: ocupar aquela cadeira onde ele agora se sentava.

Um dia Beatriz foi ao escritório. Coisa rara, tão rara que Bernardo só a conhecia de nome. Na passagem do seu gabinete para o de António ao olhar para a porta vê chegar uma senhora muito bem parecida. Ouviu Sónia chamar-lhe de Beatriz. ‘É esta então a mulher do doutor! ‘, Pensou. Abrandou o passo e ao passar por Sónia parou. Fixou o olhar em Beatriz e ficou a olhar para ela. ‘Que mulher! ‘, Pensou. Ficou pasmado a olhar para ela. Perfeita!

Voltou à realidade com Sónia: ‘Sim, Dr. Bernardo, que deseja? ‘

Bernardo ia dando uma desculpa, sem tirar os olhos de Beatriz, que habituada a situações destas, cortou o gelo com: ‘Boa tarde, eu sou a Beatriz Vieira de Abrantes, esposa de António Vieira de Abrantes. E o senhor é…? ‘

‘Bernardo Homem de Sousa. Muito prazer. ‘

Entretanto António apareceu à porta do gabinete e:

‘Beatriz, minha querida por aqui? ‘

‘Olá António Augusto. Aconteceu uma coisa muito grave com a Maria! ‘

‘Com Maria!? Mas ainda ontem falei com ela e estava tudo bem! ‘

‘Isso e porque você que é um coração de manteiga! Ela quer ir viver com aquele namorado músico. Aquele que tem uma crista! ‘

António Augusto esboçou um sorriso, enquanto pegava no braço de Beatriz e: ‘Vamos para o meu gabinete. Lá estamos mais à vontade.’

Bernardo ficou parado no mesmo sítio onde estava desde que parara em frente de Beatriz. Limitara-se a rodar em torno dos pés para acompanhar Beatriz com o olhar até ela desaparecer atrás da porta do gabinete de António.

Beatriz passou a ir com mais frequência ao escritório. Sempre que lá aprecia Bernardo fazia por se fazer mostrado e da parte de Beatriz também se notava que ela o procurava.

Cada vez se sentiam mais atraídos um pelo outro. Bernardo andava pensativo.

Maria Rosa começou a perceber que algo se passava. Ele estava distante, implicava com coisas até então secundárias para ele, tais como os decotes, o comprimento das saias, o cabelo.

Sem se aperceber bernardo comparava todas as mulheres a Beatriz. Ela era a mulher perfeita. Nunca tão grande atracção tinha sentido por alguém como sentia por Beatriz.

Numa das visitas ao escritório, Beatriz convidou Bernardo para jantar. Bernardo não aceitou de imediato, mas depois da insistência de António Augusto, acabou por aceitar.

Ficou eufórico, perdido. Estava num sino. Ia jantar a casa de António Augusto. Estava também com receio, receio de não se mostrar à altura. Ele, um serrano, filho de um pastor e de uma queijeira, ia jantar a casa de um dos mais prestigiados advogados de Lisboa.

O jantar foi marcado para as oito horas daquele dia. Bernardo vestiu o seu fato preferido. Sim, agora já não tinha só o fato que os pais lhe haviam oferecido. Com o primeiro salário, de estagiário, tinha comprado dois fatos. Por sorte tinha coincidido com uma época de promoções e tinha conseguido comprar dois fatos de um corte mais moderno.

No caminho para casa parara no centro comercial e comprara uma gravata nova. A ocasião justificava tal extravagância.

Foi um jantar agradável a quatro: António Augusto, Beatriz, Toninha e Bernardo. Foi o princípio de uma nova fase na vida de Bernardo. Àquele jantar muitos outros se seguiram.

O jogo de sedução entre Bernardo e Beatriz era cada vez maior.

Bernardo cada vez mais conquistava a confiança da família. Era visita habitual da casa dos Vieira de Abrantes e passou a passou a acompanhar Beatriz a alguns eventos, que Beatriz adorava, mas que António Augusto abominava, simplesmente. Tinham tudo para se tornarem amantes, Beatriz e Bernardo. Todas as cartas estavam a seu favor. Atracção mutua, ambição de Bernardo e a loucura de Beatriz. Os encontros entre eles eram cada vez mais assíduos. António Augusto de nada se apercebia, ou não queria aperceber. Beatriz andava feliz, não o incomodava com as suas futilidades. Para ele era suficiente. Bernardo, esse andava nas nuvens. António Augusto tinha-o contratado depois de alguns sucessos em tribunal e Beatriz presenteava-o com coisas roupas, perfumes e relógios caros. Coisa que ele, quando viva em Alpedrinha e fazia planos para o futuro não incluía, simplesmente porque não sabia que existiam!

Começava a deixar de haver espaço para Maria Rosa, que sofria em silêncio.

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

4 – Lisboa

Beatriz desliga o telefone e olha para Bernardo com um ar irritado.

- Não consegui que ela me dissesse onde está. Não sei qual é a ideia dela, Bernardo. Acha qua o facto de ter fugido pode interferir nos nossos planos?

- Beatriz, que incompetência da sua parte! Como é que não lhe arrancou essa informação? É claro que precisamos da Maria. Ainda há coisa para assinar e aquele negócio do Manet ainda pode ser posto em causa.

- Bernardo, desculpe, eu... - Beatriz calou-se. Bernardo olhava para ela com aquele olhar fulminante que tão bem conhecia. Não adiantava qualquer justificação.

- Saia Beatriz. Vou pensar o que se pode fazer...

Beatriz prepara-se já para sair quando Bernardo volta a interpelá-la.

- Beatriz, está a pensar sair de Lisboa?

- Estou de partida para o Algarve, já lhe tinha dito. De qualquer forma se achar que posso ser útil aqui, posso adiar a minha viagem por uns dias…

- Fique. Posso precisar de si. É fundamental para nós que encontremos a Maria. Ela tem que regressar a Lisboa, nem que seja à força. Como sabe, a Beatriz pode ser o único elo de ligação entre nós. Tem alguma ideia sobre a localização da sua filha?

- Não, não tenho. Se tivesse já lhe tinha dito. A Maria quase nunca viajou sozinha desde que se casou consigo e nesse período foi sempre o Bernardo quem decidiu os destinos e marcou as viagens. Por acaso sabe qual a cidade preferida da Maria?

- Não, isso nunca me interessou particularmente…

- Nem a mim. Agora talvez estejamos a pagar por isso.

- Talvez tenha razão. Vou pensar numa forma de agir. Pode ir Beatriz.

Beatriz retira-se sem dizer mais nada. Detesta que as coisas corram mal com Bernardo, sabia que ficaria a perder. Ele é um será arrogante e desprezível, mas, por enquanto está totalmente dependente dele. Não tinha sido possível obter qualquer pista sobre a localização de Maria, nem sequer havia qualquer ruído de fundo durante o telefonema que permitisse identificar em que país estaria. “Ultimamente, Maria não tem viajado sozinha, está muito debilitada. Deve ter pedido a ajuda de alguém, aliás, não me pareceu que estivesse sozinha...” - pensou. “Que chatice, devia ter dito isto ao Bernardo, assim não ficaria tão mal vista”.

Aos 62 anos, Beatriz é uma mulher esbelta e ainda conserva alguns traços de jovialidade e bom gosto que permitem adivinhar ter sido muito apreciada pelos homens e invejada por outras mulheres. Apesar da sua idade ainda hoje causa impacto nos locais que frequenta e mesmo mulheres mais novas vêem-se muitas vezes ofuscadas com a sua presença. Nascida no seio de família abastada de Lisboa, os seus objectivos de vida sempre se limitaram a ter dinheiro e marido rico. Não tinha muito jeito para os estudos e curso superior foi coisa que nunca fez nem quis fazer. Gostava de se divertir e o seu pai, que lhe achava muito graça nunca lhe faltou com dinheiro para todas as suas extravagâncias. Vivia de festa em festa na Lisboa boémia dos anos sessenta e fazia-se acompanhar pelos jovens mais pretendidos de então, causando inveja nas suas amigas e nas mulheres em geral.

Foi numa destas festas que conheceu António Augusto, um jovem advogado a viver na altura em Santarém mas a trabalhar num reputado escritório da capital. Apesar de muito inteligente, António Augusto era extremamente desajeitado com as mulheres. Envergonhava-se de tal forma que quase não conseguia manter uma conversa por mais trivial que fosse. Ao ver Beatriz pela primeira vez António Augusto ficou deslumbrado mas não conseguiu dirigir-lhe nem palavra e foi motivo de chacota entre os seus amigos, mais boémios e aventureiros. Apaixonaram-se, ele pela beleza dela, ela pelo dinheiro e carreira dele.

Casaram um ano mais tarde com a pompa e circunstância exigidas pelas famílias. O casamento foi correndo dentro dos padrões da alta sociedade da altura e o nascimento de Maria da Graça e Maria Antónia, atenuaram por uns bons anos as diferenças entre os dois.

As duas crianças crescem no seio de uma família aparentemente feliz, embora o pai acabe por estar mais presente que a mãe. Beatriz nunca deixou a sua vida boémia e os seus hábitos quotidianos não incluíam passar tempo com Maria e Toninha. Pelo contrário, António Augusto, cuja carreira como advogado se consolidou de tal forma que lhe permitiu criar uma firma própria, sempre encontrou tempo para estar com as filhas. Tinha uma afinidade particular com Maria, que embora se parecesse fisicamente com Beatriz, tinha personalidade muito mais próxima da sua. Toninha, por outro lado era como a mãe, preocupava-se unicamente com a aparência, quando foi para a escola queria sempre ter o vestido mais bonito da turma. Embora com estas diferenças, António Augusto nunca fez qualquer distinção entre as duas filhas. Pelo menos até que fossem adultas e começassem a fazer as suas opções de vida.

Quando as meninas cresceram e saíram de casa já não existia afinidade alguma entre o casal. António Augusto passou a viver exclusivamente para o trabalho e Beatriz para as festas. Uma vez que já não era preciso manter aparências dentro de casa, passaram a dormir em quatros separados e a incompatibilidade de horários era tal, que quase nem se cruzavam. Esta situação era a mais conveniente para os dois. Saíam juntos para alguns eventos sociais aos quais António Augusto não podia faltar devido às suas obrigações profissionais.

Ao morrer de ataque cardíaco no início do ano, António Augusto, deixa uma fortuna considerável à mulher e filhas mas com administração de Bernardo o seu genro de confiança. Mãe e filhas vêem-se, desta forma, totalmente dependentes de um homem ganancioso cujo único objectivo é ficar com todo o dinheiro e bens para si.

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

3- Paris (I)

7h30m, toca o despertador. Rodrigo acorda estremunhado a tentar perceber onde está. Está vestido e no sofá!

Logo lhe vêm à memória os acontecimentos de véspera. Apressou-se a desligar o despertador. Maria dormia no quarto ao lado. Não a queria acordar.Levantou-se e espreitou pela porta do quarto entreaberta. Maria dormia. O mesmo ar sereno de sempre. Continuava na mesma. Ao contrário de Rodrigo para quem uma simples preocupação eram motivo para uma noite sem dormir, ainda estava para vir problema que tirasse o sono a Maria.

Em Londres, quando acabou a relação com Mike, como sempre, Maria foi chorar no ombro de Rodrigo. Depois de chorar 'baba e ranho', adormeceu com a cabeça no colo dele. Resultado, uma noite em claro para Rodrigo enquanto Maria dormia a sono solto. Para ele não tinha sido sacrifício nenhum. Poderia tê-la tido a vida inteira no colo dele.

Nunca se cansaria. Assim como agora. Que ela não acordasse, que ele ficaria ao alto junto à porta a vê-la dormir.

Encostou a porta e foi para a cozinha preparar o pequeno almoço. Maria podia acordar a qualquer momento e, conhecendo-a como conhecia, acordaria cheia de fome.

Pôs café a fazer, telefonou para a porteira a pedir pão, queijo, leite e fruta e foi tomar banho.

-Bonjour monsieur. Comment ça va?

Rodrigo, que entretanto tinha ido para o computador ler os emails ao ouvir a voz de Maria, virou-se com um sorriso e respondeu:

-Como está a princesa? Dormiu bem?

-Muito bem, mas acordei cheia de fome.- respondeu Maria, enquanto caminhava na direcção da mesa que entretanto estava posta com um farto pequeno almoço.

-Não te esqueceste dos meus hábitos- continuou enquanto punha sumo de laranja num copo, - sumo, flocos e fruta… marveilleuse!'

-Pois, faz-se o que se pode. Temos de cativar os nossos hospedes!', disse Rodrigo em tom de brincadeira.

-Falando sério, como estás?- Rodrigo sabia que Maria não era de falar no momento, mas que passada crise ela tinha necessidade de falar.

-Estou melhor. A almofada sempre foi a minha melhor conselheira. A minha vida está virada do avesso! Todos me desiludiram…

'… mas e o Bernardo? Deixaste-o?- perguntou Rodrigo.

-Mais ou menos. Desde que o meu pai morreu a minha vida deixou de ter jeito!

-É uma longa história, a do Bernardo…-respondeu com um ar pensativo …saiu melhor que a encomenda!

-Mas não era o homem de confiança do teu pai?

-Pois aí é que está. Enquanto o meu pai foi vivo, ele conseguiu manter máscara e era o marido mais charmoso, o advogado mais competente. Tudo que ele fazia ou dizia era lei. Eu nunca tinha razão. Eu é que tinha mau feitio. Conseguiu convencer o meu pai de que eu não devia trabalhar, cortou-me o contacto com algumas pessoas e controlava todos os meus passos! As minhas roupas eram controladas por ele… Há três anos fomos convidados para o casamento da minha amiga Carlota Avilez, lembras-te dela?

-Sim, lembro, aquela tua amiga morena de Portalegre, que passou uns dias contigo em Londres quando lá vivíamos...-respondeu Rodrigo

-… Sim, é essa. Nós éramos as melhores amigas. Eles nunca se deram! Ela sempre me disse que ele não era boa peça e ele sempre disse que ela era uma fútil e que era uma má companhia. E quando ela casou foi lá a casa convidar-me para madrinha. Ele ficou furioso, mas na frente deles, deu os parabéns, disse que sim, que íamos. Na frente do noivo pôs-se a falar da nossa amizade, que éramos amigas de longa data, que as amizades como a nossa eram coisa rara e, com a maior cara de pau, disse que a Carlota era a melhor amiga que alguém podia ter.

No dia do casamento, antes de sairmos de casa fez um escândalo. Implicou com a minha roupa, com os sapatos, com a Carlota… até cabra lhe chamou! Não fosse a Carlota a minha melhor amiga e eu ser a madrinha da noiva, não tinha ido ao casamento!

Ele é louco, completamente louco! Pôs o meu pai contra mim!

Ele manipulou as coisas de tal forma, que a herança do meu pai está a ser administrada por ele! Ele deu a volta à minha mãe, o que também não é difícil. Ele só me deixou sair de casa porque já tem o que quer e sabe que se eu falo ele pode ir para à cadeia!

-Nem nos meus romances!- rematou Rodrigo.

-Sabes que eu e a minha mãe nunca fomos as melhores amigas, mas desde que casei a nossa relação descambou completamente! Já não falo com a minha mãe e com a minha irmã desde que o meu pai morreu! Não fui ao funeral do meu pai. Drogou-me e fechou-me dentro de casa. Depois disse às pessoas que eu não estava bem e que não tinha ido. E fez isso mais vezes! Para dar mostras de que eu estava mal, obrigou-me a ser acompanhada por um psiquiatra amigo dele, que me estava a fazer uma medicação que me deixava completamente desorientada. Eu andava sempre a dormir em pé e nem conseguia pensar!

-E como saíste dessa?

-O marido da Carlota é médico e um dia eles foram lá a casa jantar. Eu estava num estado tal, que quase nem conseguia falar. Ele achou que algo de estranho se passava e comentou com a Carlota. Perguntou-lhe se eu tomava drogas. A Carlota disse que não, mas ficou preocupada.

Claro que ele dizia que eu tinha ficado muito debilitada com a morte do meu pai, que estava à beira de uma depressão, que estava sob o efeito de medicação…

A Carlota como nunca acreditou nele, aproveitou uma das viagens dele e foi lá a casa. Eu estava sozinha com a empregada. Fez algumas perguntas à empregada e às escondidas levou as caixas dos medicamentos para o marido. Resultado, eu estava a ser drogada. O estado em que eu estava era induzido.

-Mas qual era a ideia desse anormal?

-Fácil. Dar-me como não capaz, internar-me numa clínica e ficar com a fortuna do meu pai. O escritório já ele dirige, as partes da minha mãe e da minha irmã, ele também faz delas o que quer… desde que elas tenham dinheiro para gastar, está tudo bem com elas!

-Sim, -continuou Rodrigo, cada vez mais atónito- como saíste dessa, então?

Tocou um telemóvel, era o de Maria. Olhou para o número e, ao ver o número suspirou e disse:

-É a minha mãe! Aposto que é obra do Bernardo…

-Atende.

-Sim, olá Mãe. Onde estou não interessa. Sim, estou bem. Não, não estou em Portugal.

A expressão de Maria ia mudando à medida que ia ouvindo o que a mãe dizia. Rodrigo estava parado em frente a ela a observar as suas expressões. Sempre achara imensa graça às expressões de Maria. Ele costumava dizer que os olhos dela falavam antes de ela abrir a boca…

Maria continuava linda como naquele dia em que se conheceram e ele apaixonado desde o primeiro instante!

O que ele já não tinha sofrido por aquela mulher! E em silêncio.

Maria sempre o viu como um irmão. Como lhe doía quando ela dizia ‘o meu mano’.

Claro que por um lado tinha orgulho em ser o seu melhor amigo, da proximidade que havia entre os dois… mas o amor dele era mais forte que isso.

Quantas vezes não teve vontade de subir ao ponto mais alto de Londres e gritar: Eu amo a Maria. Maria amo-te mais que tudo. Por outro lado tinha um medo terrível de ser descoberto. Que ela se sentisse traída e que o rejeitasse. Aí nem amizade.
Quando Maria conheceu Mike, foram dias dolorosos para ele.

domingo, 10 de Maio de 2009

3 - Londres (II)

Depois do encontro da cantina e da agradável conversa que mantiveram durante esse dia, tornaram-se inseparáveis. Eram os dois únicos portugueses do curso de História das Artes e, embora não estivessem no mesmo ano, conseguiam passar muito tempo juntos. Tinham algumas disciplinas em comum devido ao facto de ter havido uma reformulação recente do curso e para além disso, esperavam sempre um pelo outro para almoçarem na cantina.

Aos fins-de-semana Maria ia-lhe mostrando a cidade de Londres. As cidades têm sempre algo de diferente quando se passa a viver nelas. Rodrigo estava em Londres há muito pouco tempo e sentia-se ainda um turista. Nunca tinha estado numa cidade tão grande e com tanta coisa para ver e fazer. Maria já estava em Londres há dois anos e conhecia muito bem a cidade. Desde cedo foi habituada pelo pai a percorrer sozinha as ruas de Lisboa e a utilizar os transportes públicos para ir e vir do colégio e isso tinha sido muito útil nas viagens que já tinha feito sozinha e também aquando da sua mudança para Londres.

Para Rodrigo os passeios de fim-de-semana eram muito especiais. Nascera em Évora e quase não tinha viajado. Tinha agora dezoito anos e estava a viver em Londres, coisa que nunca lhe tinha passado pela cabeça até ao dia em que o pai lhe comunicou que a Tia Rosinda tinha falecido e que lhe tinha deixado todos os seu bens em herança. Rodrigo ficou atónito com a situação. Gostava muito da Tia Rosinda, mas nunca tinha pensado que a sua herança lhe fosse destinada.
Nesse mesmo dia decidiu que usaria parte do dinheiro da herança nos seus estudos. Aos 17 anos, Rodrigo era um rapaz com uma maturidade fora do que era comum nos jovens da sua idade. 'Pai, gostaria de ter a sua permissão para ir estudar para Londres, História da Arte, como era o desejo da Tia Rosinda'. O pai nem queria acreditar que o seu filho ia partir para tão longe. Não tinha, no entanto, forma de o impedir, o rapaz estava decidido e capacidades não lhe faltavam.

E foi assim que Rodrigo logo depois de completar dezoito anos concorreu como aluno estrangeiro à "University of the Arts" e se viu, passados uns meses, a viver na cidade de Londres.
Os primeiros dias não tinham sido nada fáceis. Conseguira um quarto numa das muitas residências de estudantes de Londres, mas teve alguma dificuldade em integrar-se no novo ambiente. Faltavam-lhe os mimos e a comida da mãe e os seus amigos do colégio de Évora.

A nova amiga Maria apareceu mesmo na altura certa. Era portuguesa, bonita, muito simpática e já conhecia muito bem a cidade. Rodrigo sentiu-se um príncipe. Maria parecia ter saído de um conto de fadas.

Seguiram-se meses de muito agradáveis em que os dois partilharam momentos de grande cumplicidade. Maria de uma forma mais natural e desprendida. Rodrigo de forma mais apaixonada. Ansiava pelos momentos em que estava com Maria, fazia tudo para lhe agradar. Inventava passeios em Hide Park e surpreendia-a com um piquenique, comprava bilhetes para a ópera no Covent Garden, para exposições na Tate Gallery e tantas outras actividades.
Maria achava-lhe muita graça. Rodrigo era para ela o melhor amigo que alguma vez tinha tido. Gostava de ser surpreendida pela ingenuidade dele e ria-se com o seu sotaque alentejano.
A diferença de sentimentos entre os dois começou a ser nítida. Para Maria, Rodrigo era o seu melhor amigo e a pessoa em que mais confiava. Para Rodrigo, Maria era muito mais do que isso. Era a sua princesa, a mulher da sua vida. Estava apaixonado por ela.

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

3 - Londres (I)

Nem queria acreditar. A mulher da sua vida estava ali, na sua casa, ali perto...
Uma parede os separava. Nunca tão pouco os separou! Os pais, a distância, Bernardo...
Rodrigo e Maria conheceram-se em Londres, onde ambos estudavam História da Arte. Lembra-se do dia em viu Maria pela primeira vez.
Chegou atrasado à aula. Primeiro dia de aulas, primeira cadeira do curso, primeira vez em Londres e primeira vez fora de Portugal... não fossem os dias de férias na praia da Figueira com a tia Rosinda e poderia dizer primeira vez fora do Alentejo!
Quando entrou na sala, poucos eram os lugares vagos. É sempre assim no primeiro dia, todos assistem. Durante o ano a situação inverte-se e no final, o número de lugares ocupados dá a vez ao de vazios do início do ano.
Sentou-se no primeiro lugar que viu, ou talvez não. Talvez tenha sido o destino, aquele em que ninguém quer acreditar, mas que no fim todos dizem, 'foi o destino!'
Sentou-se depois de um 'excuse' e um 'hello'. Ela querendo dar uma imagem de atenta, sem tirar o olhar do fundo do anfiteatro, esboçou um sorriso e disse um 'hello', enquanto se encolhia na cadeira, como que a dar-lhe espaço.
Poucos minutos depois acabou a aula. Rodrigo tinha-se atrasado quase quarenta minutos. Tinha saído duas estações antes no Metro e tivera de fazer o restante percurso a pé! A sorte é que naquela época do ano ainda não fazia muito frio.
Saíram e cada um foi para seu lado. Só dois dias mais tarde se voltariam a encontrar, desta vez na cantina. E lá está a 'obra do destino'. Com a cantina cheia e depois de várias tentativas mal sucedidas para arranjar lugar Rodrigo arranjou finalmente um lugar. Pousou o tabuleiro em cima da mesa, desenrolou o cachecol do pescoço, tirou o casaco e colocou-os nas costas da cadeira. Sentou-se, puxou a cadeira para a frente, começou a desembrulhar os talheres e olhou para a sua frente. Alguém o observava. Um rosto que não lhe era estranho. Era a rapariga ao lado de quem se sentara dois dias antes no anfiteatro!
Sorriram um para o outro e disseram um 'hello' ao mesmo tempo. Rodrigo, mais rápido continuou: 'I'm Rodrigo'. Maria desatou a rir à gargalhada e em português disse:'Não me digas que és português'. Rodrigo riu-se também e perguntou: 'Nota-se muito na pronuncia... ou foi pelo nome?´
'Qual das duas preferes?'.Perguntou Maria. 'Ambas', continuou...

segunda-feira, 13 de Abril de 2009

2 - Fugi (IV)

- Maria, podes ficar aqui o tempo que quiseres. A casa não é muito grande, mas dá perfeitamente para nós os dois.
- Obrigada, mas vai ser só por esta noite. Eu...
- Tu ficas o tempo que quiseres. Tens dinheiro?
Maria olha para Rodrigo e as lágrimas invadem-lhe novamente o rosto.
- Não Rodrigo, não tenho nada. Paguei a viagem para aqui com o cartão de crédito do Bernardo. Tenho algum dinheiro no banco, que dará para eu sobreviver em Paris por uns tempos. Depois só me resta a parte da herança do meu pai. Com os impedimentos que a minha mãe e a minha irmã estão a levantar, passarão uns bons tempos sem que receba um cêntimo desse dinheiro.
- Compreendo... - diz Rodrigo paternalmente, olhando o rosto daquela mulher que sempre quis para si - Mas agora vamos dormir. Já está a ficar tarde e deves ter tido um dia cansativo. Vais dormir no meu quarto e eu vou ficar no sofá do escritório.
- Só te estou a incomodar. Amanhã partirei...
Rodrigo dirige ao quarto para preparar a cama e Maria apercebe-se de que, com tanta emoção, nem tinha reparado como era o apartamento do seu amigo. Estava nas águas-furtadas de um edifício da Avenue Sufrren, mesmo ao lado da Torre Eiffel. A sala onde se encontrava era ampla e com duas janelas que, para águas-furtadas, eram de tamanho bastante generoso. De uma dessas janelas via-se claramente a Torre totalmente iluminada. -"Um privilégio, viver ver num local destes" - pensa. A sala tem um decoração minimalista, mas com bom-gosto. Estes são dois dos aspectos que sempre caracterizaram Rodrigo. O sofá em que Maria se sentou é confortável e está na melhor posição da sala, mesmo em frente à janela por onde as luzes da cidade se podem ver até uma distância bastante considerável. Em primeiro plano, as luzes da Torre mesmo ali em frente.
- Gostas da sala?
- Oh Rodrigo! Como é possível não gostar? Imagino que a vista que tens sobre a cidade te sirva de inspiração para os teus livros... É verdade! Tens escrito muito? Publicas em francês? Parece impossível que nos tenhamos afastado tanto. Não sei quase nada de ti. Desapareceste...
- Não desapareci. Precisei de me afastar de ti, de Lisboa, de Portugal. Mas falamos de tudo isso noutra altura. Preparei-te um banho bem quente. A casa de banho é mesmo aqui na direcção do quarto. A cama está feita. Deita-te e dorme. Boa noite Maria.
- Sinto mesmo que te estou a incomodar, Rodrigo. Não era nada esta a minha intenção. Desculpa!
- Os amigos nunca nos incomodam. Preocupam-nos e, às vezes, entristecem-nos. Mas não nos incomodam.
- Tens razão. E eu até estou mesmo a precisar de um banho. - As dizer esta palavras, Maria esboça finalmente um sorriso. - Boa noite Rodrigo...

terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

2 - Fugi... (III)

-...eu moro naquele prédio, disse Rodrigo apontando para um edifício virado para a Torre Eiffel.- E tu?- continuou - Que fazes aqui?
-Não sei, quer dizer, vim para o hotel, aliás vim procurar um hotel...
-Maria, que se passa contigo?- perguntou Rodrigo, segurando-lhe nos ombros, e olhando-a nos olhos.
-Rodrigo, não faças perguntas, não estou em condições de responder... preciso de um banho e de uma cama, tenho de ir para o hotel.
-Mas que hotel, Maria!? Para ali para o Hilton? Não estou a ver mais nenhum por aqui!
Maria desatou num choro e caiu de joelhos no chão com as mãos a tapar os olhos enquanto balbuciava:
-Meu Deus, que mal fiz eu para passar por isto? Que mal fiz eu para perder todos estes anos da minha vida?
Rodrigo, sem saber muito bem o que fazer, levanta-a, encosta-a ao seu ombro e fá-la caminhar em direcção ao seu apartamento enquanto lhe vai murmurando:- Vem comigo, eu vou-te ajudar. Esta noite ficas lá em casa e amanhã, quando já estiveres mais calma, tomas uma decisão...
E assim foi, com Maria amparada por Rodrigo, caminharam os dois em direcção à casa de Rodrigo.
Quando chegaram, Maria já estava mais calma. Tomou um banho quente, e bebeu uma chávena de chá bem quente que Rodrigo entretanto havia preparado.
Já mais calma, começou a falar... precisava, apesar de querer cortar com o pasado, precisava de falar... talvez assim conseguisse fechá-lo!
-A minha vida está um caos! Perdi o meu pai, a pessoa que eu mais amava neste mundo, a minha mãe afastou-se, separei-me... estou só, completamente só, sem saber o que fazer e para onde ir. Não tenho nada, nem ninguém... perdi tudo e todos... tudo que tenho está naquela mala!
Limpando as lágrimas com as costas da mão, continua, ao mesmo tempo que levanta a cabeça:-Mas eu sou forte, vou dar a volta por cima! Obrigada Rodrigo, por tudo. Não quero incomodar, ser um transtorno para mais ninguém... amanhã vou embora... obrigada por me deixares ficar aqui esta noite... continuas a ser um bom amigo!

domingo, 12 de Outubro de 2008

2 - Fugi... (II)

O táxi chega à Torre Eiffel. É o fim daquela viagem. Mas que viagem? O que é que lhe está a acontecer?
Maria sai do táxi. Precisa de ar...
Um vento gélido de Outono bate-lhe no rosto e chama-a à razão. Maria acorda daquele torpor que a invadiu desde que saiu do apartamento de Lisboa.
O encontro com Rodrigo não lha saia da cabeça. Estava em Paris, sozinha. Onde estavam os seus amigos? O seu casamento tinha-a afastado dos amigos. Viveu para o marido, isolou-se. Nos meses após o casamento ainda manteve alguns contactos, mas depois tudo isso acabou. Dedicou-se àquele que pensava ser o homem da sua vida. "-Mas que pensamento mais ultrapassado. O homem da minha vida..." - pensou ao olhar para a Torre Eiffel.
"-Nem filhos tive. Queria tanto tê-los tido. Dois, três, muitos." - não, Maria não tinha tido nem um filho. O que era agora seu ex-marido nunca quis ter filhos. Era cedo, eram novos. Queria viver a vida. E viveu. Ela sim, Maria não... Maria morreu naquele casamento. E era assim que se sentia, morta.
"-Hotel, preciso de um hotel. Mas qual? Tenho frio, preciso de um banho, estou exausta."
- Maria - alguém a chama.
Maria vira-se e a sua expressão transforma-se.
- Rodrigo! Também estás aqui?

sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

2 - Fugi... (I)

Mecânicamente, Maria segue os outros passageiros até ao terminal de recolha de bagagem.

Enquanto esperava pela sua mala, uma voz a chama:
-...Maria
Vira-se e...
-Rodrigo! Que fazes aqui?-pergunta, admirada.
-Eu, é que pergunto o que fazes aqui. Eu vivo em Paris há muito tempo, já te esqueceste?
-Pois é, que pergunta! Eu? ...eu fugi!
-Fugiste?!
-Sim fugi...-respondeu com uma voz distante.
-Mas de quem?.. de quê?
-De ninguém! Fugi...
Ao olhar para a cara de confuso de Rodrigo e antes que ele fizesse mais perguntas, continuou:
-... fugi do passado...
Aquela resposta fê-la como que acordar. Sim, só podia fugir do passado! As pessoas, essas já há muito tinham 'fugido' dela! Amigos, família...
-Maria, estás-me a ouvir? Que se passa?
-Sim,-respondeu, pestanejando com força, como que apagando a imagem que se ia formando na sua mente-estou a ouvir-te! Mas que foste fazer a Portugal? Foste de férias?
-Maria, que se passa? Estás pálida!
-Não é nada, fico sempre assim quando voo... é de estar muito tempo parada!
A sua mala surge no tapete, como que a salvando de mais explicações:
-A minha mala!-exclama com uma satisfação forçada. E continua, enquanto pega na mala:
-Gostei muito de te ver, mas agora estou com pressa, já estou atrasada. Vemo-nos por aí! Paris é grande, mas o Mundo é pequeno!-Remata com um sorriso nervoso e, sem dar qualquer hipótese a Rodrigo, dá-lhe dois beijos, e quase em passo de corrida, dirigiu-se para a porta... como que a fugir!
Chegou ao terminal de táxis, dirigiu-se para a fila à espera da sua vez.

Enquanto esperava, recordava o episódio com Rodrigo.
Mas que se passava com ela? Mais uma vez a fugir, em menos de vinte e quatro horas tinha sido brusca com as pessoas... tudo o que ela, a Maria, não era!
Chegou o táxi, entrou e lembrou-se então que não tinha para onde ir!
Oh, meu Deus, que faço agora? Olha para o taxista que aguarda pela resposta que ela não tem e diz:
-Torre Eiffel, s'il vous plait.
-Oui Madame.

Na memória tinha agora o encontro com Rodrigo. Não pela pessoa, mas pela atitude dela! O Rodrigo era um amigo de longa data. Já não o via há muito tempo... desde solteira, provavelmente, mas era um bom amigo, daqueles que quando os encontramos depois de muito tempo, temos a sensação que não nos vimos desde o dia anterior!
Como ele se apercebeu que ela não estava bem!
Mas o que se passa comigo? -pergunta a si própria baixinho ao mesmo tempo que olha pela janela e se apercebe que já percorreu metade do caminho.

E agora?

sábado, 9 de Agosto de 2008

1 - Fazer as malas (IV)

No táxi a caminho do aeroporto, Maria despede-de de Lisboa.
Lisboa sempre foi a sua cidade. Viajou pelo mundo inteiro e até estudou em Londres, por capricho do pai. Fez História da Arte, um curso indicado para meninas ricas cujo futuro é apenas casar com um "bom partido", mas que convém terem alguma cultura para socializarem nas festas. Esta foi a única vez que Maria esteve contra uma decisão de seu pai António Augusto.
Paris, Nova Iorque, Milão são locais que visita regularmente, mas Lisboa sempre foi a sua cidade.
Maria pensa - "Quando vou voltar? Que falta me vai fazer a luz de Lisboa"

O táxi chega ao terminal do aeroporto e Maria nem dá por isso. O taxista diz o preço com a antipatia que caracteriza os taxistas em Lisboa. Paga sem se aperceber da quantia. Não é isso que lhe importa. Naquele momento ela só pensa que vai viajar quase obrigada. Obrigada por uma sociedade que a critica pela opção que tomou. Afinal, que mais poderia ela querer? Um marido de famílias tão importantes como a sua. Dinheiro, viagens, luxo, festas...

Ao descolar no conforto da classe executiva da TAP, não consegue conter uma lágrima.

- Senhores passageiros, dentro de momentos aterraremos no aeroporto Charles de Gaulle em Paris. Pedimos que ser conservem sentados, com os cintos de segurança apertados até que o avião esteja complemente imobilizado e o sinal de "apertar cintos" desligado...

Maria acorda de um torpor de duas horas e meia.

"Cheguei a Paris. O que vai ser de mim"

domingo, 27 de Julho de 2008

1 - Fazer as malas (III)

Enquanto se dirigia para a porta, pensava:' Não muda mesmo, sempre a quebrar os compromissos!... e se não é ele, quem será... a minha mãe?... mas ela está no Algarve com o marido e a minha irmã!... Ah, às tantas é....'.
Nesse exacto momento abre a porta e dá de caras com D. Rosa, a vizinha do segundo andar. Respirou de alívio e as primeiras palavras que lhe saíram foram:
-Ah, é a D. Rosa...
E antes que a mulher dissesse algo, Maria continuou
-...Desculpe, pensei que era outra pessoa.. .é que estou de saída e pensei que era a minha boleia para o aeroporto!
-Ah, vai viajar, D. Maria... por quanto tempo?
-Para sempre! Respondeu Maria bruscamente, por um lado tentando que a vizinha não fizesse mais perguntas e por outro tentando convencer-se de que jamais voltaria aquela casa!
-E agora vai-me desculpar, D. Rosa, mas é que a minha boleia está atrasada e vou ter de lhe ligar para perguntar o que se passa!
E ao mesmo tempo que dizia estas palavras, empurrava a mulher para a parte de fora do apartamento com uma mão ao mesmo tempo que ia fechando a porta com a outra.
Quando fechou a porta, sentiu-se mal! Nunca tinha sido Assim! Brusca, irónica, mal educada!... e se a mulher estivesse com algum problema e precisasse de ajuda?! Estava a ser egoísta. Não era só ela quem tinha problemas neste mundo!
Não, de uma vez por todas tinha de ir embora e era já!
Pegou no telemóvel, marcou o número do rádio táxi e pediu um táxi para a levar ao aeroporto.

segunda-feira, 21 de Julho de 2008

1 - Fazer as malas (II)

A avó Maria das Dores, mulher mais sisuda e menos dada a manifestações de afecto, tinha sido um exemplo de mulher para Maria. A vitalidade com que comandava os trabalhos da grande casa da quinta e a dedicação e respeito que tinha ao seu marido sempre a tinham impressionado. Maria recorda as lágrimas daquela mulher no dia em que o avô Sebastião morreu. Desde esse dia Maria das Dores nunca mais fora vista a chorar.
Outros tempos... pensa Maria ao olhar pela última vez para aquele espaço a que chamou quarto, para aquela casa a que chamou lar durante quase 12 anos. Não era uma mulher como a Maria das Dores que ali estava.
Com lágrimas nos olhos percorre todas as divisões da casa. Recorda momentos bons e momentos muito maus ali passados. Despede-se dolorosamente.
- Se estou livre, porque não me sinto feliz? - pensa.

A pequena mala está pronta. Maria prepara-se para sair dali. Vai para Paris uns tempos, ao menos lá estará longe de tudo e de todos.

A campainha toca. Maria acha estranho, uma vez que combinara com o ex-marido que estaria ali até as cinco e meia e são apenas cinco horas.
Com o coração aos saltos, precipita-se para a porta de entrada.

sábado, 19 de Julho de 2008

1- Fazer as malas (I)

Enquanto fazia a mala, sentada na beira da cama, Maria tentava perceber como a sua vida a havia levado até ali!
Incrível como, no espaço de um ano, a sua vida dera uma volta tão grande!
A morte repentina do pai, a dor da mãe, o casamento da mãe, a zanga com a mãe e o fim do seu casamento!
O que ela estava a pôr naquela mala era o que restava de um casamento! Meia dúzia de peças de roupa, alguns livros e muita dor, mas essa não cabia na mala!

Maria tinha tido uma infância feliz, no seio de uma grande família em que 'a união era a força da família', como costumava dizer o seu avô, Sebastião!
O seu avô, Sebastião Vieira de Abrantes... que saudades! Tinha sido militar, alta patente, tinha feito comissões na Índia, Timor... e mais tarde em Angola. Apesar de militar, de austero não tinha nada... quando se juntava com os netos, na quinta em Santarém...